Disputa pela organização das filas na saúde pública
A fila para consultas, exames e cirurgias figura entre os maiores desafios da saúde pública em São Paulo. A questão virou ponto central da campanha do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do ex-ministro Fernando Haddad (PT). Enquanto Tarcísio aposta no aumento do financiamento e na ampliação dos serviços digitais, Haddad propõe reorganizar a regulação e melhorar a transparência para os pacientes sobre sua posição nas filas.
Desafios na gestão e transparência das filas
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que apenas 11,2% dos municípios paulistas utilizam as plataformas federais de regulação, dificultando a consolidação das informações sobre demanda e atendimento. O relatório apontou ainda que São Paulo teve um aumento superior a 300% nas filas de cirurgias eletivas entre 2023 e 2025, um dos maiores crescimentos do país, empatado com estados como Rio de Janeiro e Rondônia.
Esses dados mostram que a dificuldade de dimensionar a demanda por atendimento especializado motiva as propostas dos candidatos. Haddad defende a consulta direta pelo CPF da posição e tempo estimado na fila para consultas e cirurgias, além da priorização baseada em critérios clínicos e agendamento via Meu SUS Digital. Ele também aposta na integração dos equipamentos de saúde e no uso ampliado da telessaúde, carretas e serviços privados complementares para aumentar a oferta.
Investimentos e estratégias do governo atual
Tarcísio, por sua vez, destaca o aumento do financiamento aos hospitais por meio da Tabela SUS Paulista, criada em 2024, que complementa os valores pagos pelo governo federal. Segundo o governo estadual, essa tabela pode elevar o pagamento de determinados procedimentos em até cinco vezes em comparação à tabela nacional. O foco é ampliar a produção nas áreas com maior pressão sobre o sistema.
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Em 2025, houve crescimento nos procedimentos clínicos, diagnósticos e na produção de urgência e emergência ambulatorial. As internações subiram 9,05% em relação a 2023. A Tabela SUS Paulista também foi estendida aos hospitais municipais, com um decreto de maio estabelecendo R$ 760 milhões anuais para custeio em 77 cidades, beneficiando cerca de cem hospitais.
Regulação e tecnologia para melhorar o acesso
Apesar do aumento dos recursos, o governo reconhece que ampliar a oferta demanda melhorias na regulação. O Sistema Informatizado de Regulação de São Paulo (Siresp) organiza os fluxos de atendimento ambulatorial, urgência e leitos, e o programa AME+ Digital prevê consultas híbridas, com potencial para atingir cerca de 4 milhões de pessoas.
Especialistas apontam desafios e soluções
O sanitarista Gonzalo Vecina Neto, da USP e FGV, destaca que o maior problema é o acesso à atenção especializada e a falta de integração entre as redes municipal e estadual. Para ele, a Tabela SUS Paulista é uma resposta eficaz para valorizar consultas e internações, mas o absenteísmo — pacientes que desistem da consulta após meses de espera por outras soluções — dificulta o cálculo real da demanda.
O médico Jean Gorinchteyn, ex-secretário de Saúde do governo João Doria, acrescenta que o envelhecimento populacional e o avanço das doenças crônicas aumentam a pressão sobre o sistema. Mesmo com gestão eficiente das filas, a necessidade de ampliar a capacidade de atendimento persiste. Ele defende o fortalecimento da atenção básica, com vacinação, acompanhamento familiar e diagnóstico precoce para evitar agravos que exigem tratamentos complexos.
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Gorinchteyn recomenda ampliar as teleconsultas em regiões com dificuldade de acesso a especialistas, reforçando que as estratégias propostas pelos candidatos — a Tabela SUS Paulista e a integração dos dados — atuam em frentes distintas, mas complementares. Para ele, é essencial uma fila atualizada constantemente, com números detalhados de pacientes, procedimentos e tempo de espera, e o uso da rede privada para suprir a demanda quando o sistema público não for suficiente.
Transparência e integração como caminhos para reduzir as filas
Ambos os candidatos reconhecem a complexidade da questão e apresentam propostas que buscam melhorar o acesso e a organização do atendimento. A transparência na posição do paciente na fila, a integração dos sistemas e o aumento dos recursos financeiros aparecem como pontos-chave para enfrentar as longas esperas que impactam milhares de pessoas no estado.
O desafio permanece: garantir que o investimento e a tecnologia se traduzam em atendimento mais ágil e eficiente, especialmente para quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). A população aguarda soluções que reduzam o tempo de espera e ampliem o acesso a cuidados especializados, com foco na prevenção e no atendimento de qualidade.

