Tecnologia Inovadora no Atletismo
A largada, um dos momentos mais críticos nas provas de corrida de velocidade no atletismo, pode ser decisiva para o resultado final. A forma como o atleta aplica força nos blocos de partida, o tempo de reação e a potência inicial são fatores que podem fazer toda a diferença. Contudo, a análise desse movimento frequentemente depende de equipamentos laboratoriais caros, que não são viáveis para uso cotidiano nas pistas.
Com isso em mente, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Reabilitação e Desempenho Funcional da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP trouxeram uma solução inovadora ao desenvolver um taco de partida instrumentado. Essa tecnologia mede, em tempo real, a força aplicada pelos atletas no momento da largada, fornecendo feedback imediato para treinadores e equipes.
Desenvolvimento e Colaboração
O sistema foi criado como parte da tese de doutorado de Moser Zeferino Vicente José, sob a orientação do professor Paulo Roberto Pereira Santiago, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto. A pesquisa também contou com a colaboração das equipes olímpicas e paralímpicas de atletismo do Sesi, ressaltando a importância da parceria entre academia e prática esportiva.
O dispositivo, chamado Taco de Partida Instrumentado IoT (Internet das Coisas), transforma um bloco de partida tradicional em uma ferramenta tecnológica acessível. O sistema é equipado com sensores e softwares que coletam e transmitem dados em tempo real, permitindo uma análise detalhada do desempenho dos atletas.
Desafios e Diferenciais
De acordo com o professor Santiago, embora tecnologias semelhantes já estejam disponíveis no mercado, elas apresentam limitações significativas. “Existem dispositivos para análise de largada, mas seus altos custos os tornam inviáveis. Além disso, muitas dessas tecnologias são importadas e não promovem a geração de conhecimento local. O objetivo aqui foi desenvolver uma solução aberta, com acesso aos dados brutos, que possibilite tanto a prática quanto a pesquisa”, explica.
O funcionamento do sistema se dá por meio de células de carga acopladas ao bloco de partida, que registram a força aplicada pelos atletas durante a largada e o tempo de reação ao disparo. As informações são processadas por um microcontrolador ESP32 e transmitidas via Bluetooth para o aplicativo StartBlock, desenvolvido pela equipe em React Native. Essa tecnologia permite que treinadores e atletas visualizem gráficos de força e dados numéricos em tempo real, facilitando ajustes técnicos imediatos.
Acessibilidade e Usabilidade
Uma das principais inovações do taco de partida instrumentado é a sua acessibilidade. Santiago salienta que a escolha por componentes de baixo custo foi crucial. “Optamos por uma arquitetura que utiliza equipamentos comuns no mercado. A estrutura é aberta, o que permite que o dispositivo seja compreendido e adaptado mesmo fora de laboratórios especializados”, afirma.
O doutorando Moser José, responsável pelo projeto, complementa que a análise da largada é apenas uma parte de um estudo mais amplo sobre o desempenho em diferentes cenários de corrida. “A nossa pesquisa envolve verificar a força aplicada no bloco, permitindo que extraiamos informações valiosas, como tempo de reação e distribuição de força nas pernas”, destaca.
Impacto no Treinamento e Futuro da Tecnologia
Um dos grandes diferenciais dessa tecnologia é a possibilidade de uso em ambientes de treinamento, fora dos laboratórios. “Apesar de incorporar sensores e microcontroladores, nosso objetivo foi tornar a tecnologia acessível e prática para o dia a dia dos atletas”, ressalta Santiago.
A treinadora da equipe de atletismo do Sesi, Maria Rosana Soares, reconhece a relevância da ferramenta. “A análise de dados nos permite trabalhar diretamente em aspectos como o tempo de reação e a força aplicada na largada. Se o atleta não estiver utilizando a força adequadamente, isso fica claro nos dados, o que facilita ajustes no treinamento”, explica.
Erik Felipe Barbosa Cardoso, recordista brasileiro e sul-americano nos 100 metros, também elogia a tecnologia. “Na corrida de velocidade, a saída do bloco é crucial. Esse sistema nos ajuda a visualizar força e tempo de reação, apontando erros e auxiliando os treinadores a planejarem treinos mais efetivos”, afirma.
O taco de partida instrumentado já foi testado por atletas do Sesi, mas ainda passa por ajustes finais antes da entrega prevista para março de 2026. Os dados coletados serão utilizados em futuras pesquisas na USP, incluindo projetos de iniciação científica, ampliando o impacto científico e social dessa inovadora tecnologia.

