Desafios no Acolhimento de Idosos
A garantia de uma vida digna para os idosos envolve diversos fatores cruciais, como o acolhimento e o tratamento cotidiano que recebem. Entretanto, essas necessidades, consideradas essenciais, revelam-se como desafios significativos tanto para as famílias quanto para as autoridades públicas no Brasil. Conforme os dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 161 mil pessoas residem em asilos ou instituições de longa permanência para idosos (ILPIs).
O cenário se agrava com o envelhecimento acelerado da população brasileira, que registrou um aumento impressionante de 57,4% no número de idosos entre 2010 e 2022. Estima-se que, até 2031, o número de pessoas acima de 60 anos ultrapasse o de crianças no país. Esse quadro exige que os municípios se mobilizem para implementar políticas públicas eficazes e estruturas adequadas para garantir um acolhimento de qualidade, como enfatiza Carlos Cezar Barbosa, promotor de Justiça da Pessoa Idosa.
Proliferação de Abrigos Irregulares
Na visão de Barbosa, a escassez de políticas públicas adequadas tem contribuído para a proliferar de abrigos clandestinos. Por exemplo, em Ribeirão Preto (SP), a Vigilância Sanitária descobriu, em 2025, pelo menos 27 irregularidades em três casas de repouso sob a mesma supervisão. A proprietária foi presa e os estabelecimentos interditados devido a condições insalubres, como sujeira extrema e falta de higiene básica.
A mensalidade cobrada por essas casas de repouso pode chegar a R$ 2,5 mil, um valor elevado em troca de condições de vida precárias. “A falta de ações efetivas por parte do poder público tem gerado um ambiente propício para que estas casas de repouso surjam sem seguir as normas de Vigilância Sanitária, comprometendo a qualidade de vida dos idosos”, destaca Barbosa.
Denise Pereira de Castro, que tem um familiar residindo em um abrigo, enfatiza a necessidade de intensificar as fiscalizações. “O suporte do poder público é praticamente inexistente. A fiscalização deve ser rigorosa para assegurar que esses locais atendam às necessidades dos idosos, como a presença de enfermeiros e uma alimentação adequada”, afirma.
Propostas para Melhorar a Situação
Conforme Barbosa, as instituições que mantêm convênios com o município não conseguem suprir a demanda crescente e carecem de incentivo para expandir sua capacidade. “Elas não têm motivação para aumentar a capacidade de atendimento, o que acaba comprometendo a luta contra as casas clandestinas”, explica.
Como solução, a professora Nereida Kilza da Costa Lima, da Divisão de Clínica Médica Geral e Geriatria do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, sugere um apoio financeiro àqueles que voluntariamente cuidam de idosos. Segundo ela, isso poderia ajudar as famílias a priorizar o cuidado com seus entes queridos, já que muitas enfrentam dificuldades devido ao trabalho e à falta de cuidadores.
O Ministério Público também está atuando para resolver o impasse. Barbosa explica que a instituição tem promovido ações judiciais para garantir que os idosos sejam realocados em abrigos regulares. “O Ministério Público atua de forma significativa, pois muitos idosos precisam de ajuda para serem encaminhados a instituições adequadas. Se não houver vagas nas filantrópicas, o município e o estado devem custear a estadia em instituições particulares”, afirma.
A Relevância do Acompanhamento Familiar
As famílias que decidem institucionalizar um idoso enfrentam duas responsabilidades principais: a escolha de um local adequado e o acompanhamento contínuo dos cuidados prestados. Barbosa destaca que o primeiro passo é verificar se o abrigo possui alvará de funcionamento junto à Vigilância Sanitária. “É inadmissível que alguém coloque um idoso em uma instituição que não oferece uma vida digna”, alerta.
Denise complementa que é essencial manter uma vigilância sobre o tratamento recebido pelos idosos. “Não basta depositá-los na casa de repouso e se afastar. Muitas vezes, a realidade é diferente do que se apresenta inicialmente. O envolvimento da família é fundamental para garantir o bem-estar do idoso”, conclui.

