O Cenário Desafiante no agronegócio
O agronegócio brasileiro enfrenta um conjunto de desafios que se estende há anos, agravados por questões globais como as guerras na Ucrânia e no Irã, além da elevação da taxa básica de juros e a queda nos preços de diversas commodities. Esses fatores têm repercutido diretamente nas compras de máquinas agrícolas, como tratores e colheitadeiras, principalmente nas regiões onde a produção de grãos é mais intensa.
Luis Felli, head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da Agco, que administra marcas renomadas como Valtra e Fendt, expressou sua preocupação em relação ao atual quadro do setor. Durante a Agrishow, feira internacional focada em tecnologia agrícola realizada recentemente em Ribeirão Preto, Felli notou uma redução de 25% nos negócios em comparação com 2025. Para este ano, a expectativa é de que a diminuição no volume financeiro das vendas seja ainda mais acentuada do que a queda no número total de máquinas comercializadas, com uma tendência de transações envolvendo tratores menores e, portanto, mais econômicos.
Perspectivas de Vendas e Preços
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De acordo com Felli, o mercado pode enfrentar uma queda entre 5% a 8%, mas ele alerta que essa redução nas vendas não reflete a deterioração do tíquete médio dos produtos. As máquinas de grande porte estão com vendas em baixa, enquanto os tratores menores, em alguns mercados, podem manter suas vendas, especialmente na produção de café. “O mercado de máquinas agrícolas é diretamente impulsionado pela demanda por grãos, e atualmente, esse setor está em uma fase de vulnerabilidade”, afirmou o executivo.
Em termos financeiros, a feira em Ribeirão Preto resultou na perda de, pelo menos, R$ 3,2 bilhões em vendas, em valores nominais, enquanto foram registradas intenções de negócios totalizando R$ 11,4 bilhões. Um cenário similar ocorreu na Tecnoshow, em Rio Verde (GO), onde as transações reduziram em 30% em relação ao ano anterior, após um pico de R$ 10 bilhões em propostas em 2025.
Cenário Econômico e Desafios Estruturais
O primeiro trimestre deste ano apresentou um total de 9.800 unidades de máquinas agrícolas vendidas no varejo, marcando uma queda de 13,1% em comparação com o mesmo período de janeiro a março de 2025, segundo dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). A análise dos especialistas aponta que as dificuldades do mercado estão relacionadas à importação de fertilizantes, aos altos preços do óleo diesel, à taxa básica de juros e à depreciação das commodities em relação a safras anteriores, além da valorização do real.
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Felli ressaltou que a taxa de juros elevada, mantida em dois dígitos por quase cinco anos, tem inibido os investimentos dos produtores. Ele exemplificou que com a valorização do real, que passou de R$ 6 para R$ 4,97, houve um impacto significativo na cadeia produtiva. “O produtor enfrenta pressões financeiras consideráveis”, destacou.
Iniciativas e Inovações para o Setor
Uma boa notícia para o setor veio com o anúncio de uma linha de crédito de R$ 10 bilhões, com juros abaixo de 10%, feita pelo vice-presidente Geraldo Alckmin na Agrishow. Essa iniciativa pode oferecer um alívio em meio à crise. Contudo, Felli enfatiza que é fundamental que o acesso a essa linha de crédito seja claro e que instituições financeiras, como o Banco do Brasil, estejam devidamente credenciadas.
Na feira, a Massey Ferguson apresentou novos tratores menores voltados para a agricultura familiar, com potências de 35 e 45 cavalos, para atender a uma demanda que não vinha sendo satisfeita nos últimos anos. Além disso, a empresa anunciou que os veículos movidos a etanol devem chegar ao mercado em 2028, fruto de um investimento anual de 4,5% a 5% de seu faturamento global em inovação.
Futuro e Sustentabilidade no Setor
Felli acredita que a descarbonização das máquinas agrícolas é um caminho inevitável, enfatizando a necessidade de segurança energética no contexto atual global, exacerbada pelos conflitos no Irã. Ele apresentou inovações em motores a diesel com tecnologias que prometem uma redução de até 30% no consumo em relação aos modelos tradicionais. A introdução de biodiesel na matriz de combustível se mostra essencial para o Brasil, com metas de mistura que podem contribuir para melhorar a segurança energética.
O cenário é desafiador, mas com iniciativas certas e foco em inovação, o setor agrícola pode encontrar caminhos para a recuperação e a sustentabilidade.

