O Papel da Inteligência Artificial na Busca por Diagnósticos
Margie Smith, ao enfrentar problemas de saúde em 2022, buscou ajuda de diversos especialistas. Consultou um alergista devido a uma tosse persistente e três pneumologistas por conta da falta de ar. Também procurou um otorrinolaringologista por um refluxo severo e, após quase desmaiar durante exercícios, um cardiologista. Sua experiência revelou uma limitação dos médicos, que pareciam presos às suas especialidades, sem conseguir formar um diagnóstico abrangente.
“O sistema de saúde realmente falhou comigo. É bom depender de IA para aconselhamento médico? Não acho que sim, mas é a única opção disponível”, desabafa Margie.
O uso de chatbots de saúde tem crescido, com um terço dos adultos se utilizando dessa tecnologia, conforme uma pesquisa divulgada em março. Uma reportagem do The New York Times destacou que muitas usuárias são mulheres com doenças crônicas complexas, frequentemente mal compreendidas. Esse fenômeno ocorre em parte pelo tempo prolongado que leva para se obter um diagnóstico e pela complexidade dos sintomas que abrange várias especialidades médicas. Muitas vezes, doenças como a Covid longa e condições autoimunes afetam desproporcionalmente as mulheres, o que pode resultar em médicos minimizando ou atrasando o tratamento adequado.
Centenas de pessoas compartilharam experiências sobre como têm recorrendo à inteligência artificial para obter orientações sobre saúde. Embora as mulheres reconheçam que os chatbots muitas vezes oferecem informações imprecisas e, em alguns casos, erros graves, a maioria delas admite que gostaria de contar com a assistência de médicos, mas sentem-se desamparadas. James Landay, co-diretor do Instituto de IA Centrada no Humano da Universidade Stanford, observa: “Há muitos problemas no uso de chatbots para orientações médicas. Mas também precisamos entender os motivos que levam as pessoas a recorrer a esse recurso”.
A História do Autodiagnóstico e os Riscos da IA
Historicamente, pacientes têm buscado realizar autodiagnósticos através de fóruns, redes sociais e plataformas como Google e WebMD. Casos de pessoas que foram ignoradas por médicos, mas estavam corretas em suas pesquisas pessoais, são comuns. No entanto, há também aqueles que seguiram tratamentos não recomendados e se prejudicaram. Portanto, recorrer à IA para preencher lacunas deixadas pelo sistema de saúde se tornou uma prática comum, segundo John J. Whyte, CEO da American Medical Association, embora a tecnologia traga riscos maiores.
Os chatbots frequentemente pedem detalhes sobre os históricos médicos dos usuários, até mesmo solicitando resultados de exames. A promessa de respostas personalizadas e completas pode enganar, levando as pessoas a acreditar em informações que não são precisas.
Algumas startups têm desenvolvido IA voltadas para diagnósticos médicos, mas como ressaltou Danielle Bitterman, responsável pela ciência de dados e IA no Mass General Brigham, os chatbots comuns “não foram testados de maneira adequada” para fornecer diagnósticos confiáveis e podem cometer erros significativos.
Experiências de Sucesso e Desafios no Uso de IA
Um caso notável envolve Patty Costello, uma pesquisadora de Idaho. Depois de anos lidando com sintomas como náuseas, diarreia e fadiga, ela recorreu ao ChatGPT para descrever suas queixas. O chatbot sugeriu várias possíveis condições, incluindo a síndrome de ativação de mastócitos (MCAS), que foi confirmada por um alergista após sua pesquisa. Com o tratamento correto, Patty relata ter melhorado cerca de 80%.
No entanto, essa experiência não reflete a realidade da maioria dos usuários. Um estudo recente revelou que, mesmo com instruções detalhadas, menos da metade das pessoas sem formação médica conseguiu fazer diagnósticos corretos usando chatbots. Alguns pacientes acabaram procurando médicos com sintomas graves que não correspondiam à realidade, enquanto outros confiam em chatbots e falham em investigar condições sérias. Médicos já atenderam casos de pacientes que sofreram consequências graves por conta de informações erradas obtidas dessas ferramentas.
A Necessidade de Alfabetização Científica e Cuidado
É evidente que muitas histórias de sucesso vêm de indivíduos que possuem algum conhecimento na área da saúde. Caroline Gamwell, fisioterapeuta em Denver, passou anos lidando com dores crônicas e, ao buscar respostas com o ChatGPT, conseguiu refinar suas possíveis condições. Através de uma interação extensa, Gamwell pôde descartar diagnósticos que não se aplicavam a ela e, finalmente, encontrou um tratamento adequado.
Embora algumas pessoas sintam que chatbots oferecem insights valiosos sobre doenças crônicas, muitas também expressam preocupação com sugestões inadequadas. A ex-engenheira elétrica Deborah Holcomb, que sofre de encefalomielite miálgica/síndrome da fadiga crônica, encontrou no uso de chatbots uma maneira de monitorar seus sintomas, mas faz questão de não tomar decisões sem consultar um médico. As sugestões nem sempre se alinham com as realidades médicas das condições, o que pode levar a recomendações inadequadas.
No caso de Samantha Allen Wright, professora de inglês, ela utilizou o ChatGPT para explorar informações sobre suas enxaquecas e disautonomia, mas também se deparou com interpretações errôneas dos exames. A questão da alfabetização científica se torna crucial, pois muitos usuários sem formação podem não ter a capacidade de discernir informações corretas das erradas.
Assim, enquanto a inteligência artificial avança na área da saúde, é fundamental que pacientes sejam críticos e cuidadosos no uso dessas ferramentas, sempre buscando a orientação de profissionais qualificados para evitar consequências indesejadas.

