Memória Urbana nas Placas das Ruas
Em Ribeirão Preto, as ruas e avenidas são mais do que simples vias; elas carregam nomes que revelam capítulos importantes da história local. Ao olhar para essas homenagens, é possível compreender os processos de formação da cidade, suas transformações e os personagens que deixaram marcas em seus 170 anos.
Para desvendar essa memória, o Portal Revide conversou com a historiadora Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa, coautora do livro “Ruas e Caminhos: um passeio pela história de Ribeirão Preto”. Publicada em 2007 pelo Arquivo Público e Histórico da cidade, a obra, organizada em parceria com Tânia Cristina Registro, reúne relatos que ajudam a conectar o passado ao presente da região.
Personagens que Marcaram a História Local
Um dos nomes mais conhecidos é o de Francisco Junqueira, que batiza uma das principais avenidas da cidade. Nascido em Ribeirão Preto em 1880, Junqueira teve papel ativo na política local e estadual, atuando como deputado estadual pelo antigo Partido Republicano Paulista, vereador e presidente da Câmara Municipal. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, foi secretário da Agricultura no governo de Pedro de Toledo. Depois de um período de exílio em Portugal, retornou ao Brasil e se tornou produtor de café, proprietário da Fazenda Brejinho, em Bonfim Paulista.
“Sua trajetória reúne três marcas decisivas da história local: a política, a terra e o café”, destaca Lilian. Esse tripé simboliza bem parte da identidade de Ribeirão Preto, que cresceu a partir dessas bases.
Outra figura que deixa sua marca é Joana Malfará, cujo nome batiza uma rua no Jardim José Sampaio Júnior. Nascida em Roma em 1900, ela chegou ainda criança ao Brasil e se estabeleceu em Ribeirão Preto com a família, que se dedicava ao comércio de frutas e verduras no Mercado Municipal. A família de Joana construiu uma das casas comerciais mais tradicionais do Mercadão ao longo dos anos.
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Além do comércio, Joana contribuiu com instituições assistenciais da cidade, como o Educandário Coronel Quito Junqueira, o Asilo Padre Euclides, a Santa Casa de Misericórdia e o programa “O Pão dos Pobres”. “Sua história ajuda a enxergar a dimensão dos imigrantes, pequenos comerciantes e famílias que formaram a base econômica cotidiana da cidade”, afirma a historiadora.
Influência de Imigrantes e Profissionais na Construção Urbana
A presença dos imigrantes também é lembrada na homenagem ao polonês Jaime Zieger, que empresta seu nome a uma avenida no bairro Dom Bernardo José Mielle. Nascido em 1919, Zieger chegou a Ribeirão Preto em 1956, atuando como engenheiro civil, arquiteto, professor e jornalista. Ele participou de obras emblemáticas, como a Estação Rodoviária do Triângulo, o novo Mercado Municipal e o Teatro de Arena.
Mais do que técnico, Jaime Zieger foi um incentivador da arte e cultura local, reconhecido pela Câmara Municipal com o título de cidadão ribeirão-pretano. “Seu nome representa a importância daqueles que projetam e planejam a cidade, mostrando que a construção urbana vai além da política e do capital”, observa Lilian.
Entre os pioneiros da região, José Borges da Costa, nome de uma rua no Alto da Boa Vista, é outro personagem fundamental. Mineiro, chegou no início do século XIX e participou da doação de terras que formaram o Patrimônio de São Sebastião, marco religioso e territorial da cidade.
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Ele representa a origem da cidade, marcada pela religiosidade, posse da terra e relações sociais complexas, incluindo a escravidão. “Seu nome remete à fundação de Ribeirão Preto, mas também convida a uma leitura crítica sobre os contextos históricos”, afirma a historiadora.
Cultura Popular nas Ruas de Ribeirão Preto
Nem todas as homenagens estão ligadas à política ou economia. No Jardim Heitor Rigon, a rua Osvaldo de Souza lembra “Vando”, músico e compositor nascido em Ribeirão Preto em 1908. Vando foi maestro e responsável pela Orquestra Carnavalesca Choro Quadrado, que animava o carnaval com marchinhas e instrumentos produzidos por ele mesmo.
Durante o carnaval, a orquestra percorria as ruas sobre uma caminhoneta, enquanto Vando distribuía livretos com as letras das canções. “Essa história traz de volta às ruas a festa, a música e a sociabilidade popular, mostrando que a memória urbana também tem som e ritmo”, destaca Lilian.
Conhecer a origem dos nomes das ruas é, portanto, uma forma de compreender a cidade em suas múltiplas dimensões. “Eles contam histórias, mas não revelam tudo. A pesquisa histórica é fundamental para completar essas camadas, explicitar contextos e dar complexidade à memória pública”, conclui a historiadora.

