Uma Celebração à Música de Coltrane
Reconhecido como um dos grandes nomes do jazz, John Coltrane (1926-1967) transformou a música improvisada e a noção de performance como conhecemos. Seu domínio do saxofone, combinado a uma intensidade excepcional, fez com que seu legado se mantivesse forte por quase um século. Por essa razão, a primeira edição de 2026 do projeto “Na Sombra das Mangueiras” prestará uma homenagem ao artista no próximo dia 30 de abril, Dia Internacional do Jazz, com uma apresentação do Vinicius Mendes Quarteto, nos jardins da Casa Fiat de Cultura.
“Coltrane elevou o jazz a um novo patamar”, afirma Vinicius Mendes. “A força de sua obra reside não apenas na interpretação de seus temas, mas principalmente na forma como ele transformou o improviso em uma linguagem central, quase como um novo idioma para o saxofone, além da interação perfeita com seu quarteto histórico”, ele diz, referindo-se ao grupo icônico que Coltrane formou com o pianista McCoy Tyner (1938-2020), o baterista Elvin Jones (1927-2004) e o contrabaixista Jimmy Garrison (1934-1976).
Desafios na Homenagem a Coltrane
Reproduzir a obra de Coltrane no palco traz um desafio intrínseco: como homenagear um artista que fez do improviso sua assinatura? O quarteto mineiro, criado especialmente para a apresentação, composto por Vinicius Mendes (saxofone e voz), Rodrigo Zolet (piano), Davi de Oliveira (baixo acústico) e André Limão Queiroz (bateria), optou por se basear nas estruturas originais, mas com a cautela de evitar uma cópia literal.
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“O jazz é, por essência, uma música improvisada”, ressalta Vinicius. “Nós tocamos os temas, mas sempre deixamos espaço para a improvisação.”
A Estrutura do Concerto
Com uma duração aproximada de 60 minutos, o concerto abrange as principais fases da carreira de Coltrane, desde o hard bop até o free jazz, passando pelas inovações conhecidas como “Coltrane changes” e a fase modal. No hard bop, que inclui composições de 1955 a 1959, as canções têm uma estrutura mais reconhecível, próxima ao blues e ao gospel, onde um tema claro serve como base para os improvisos.
No período dos “Coltrane changes” (1959-1961), Coltrane levou a harmonia a novos limites, criando sequências de acordes complexas, tocadas em alta velocidade. Essa fase evoluiu para o modal na década de 1960, caracterizada pela redução de acordes e pela ampliação dos espaços para a improvisação, permitindo que ideias surgissem com mais calma e profundidade.
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Essa jornada musical culminou em 1965, quando Coltrane começou a explorar o free jazz, rompendo com estruturas fixas e tornando sua música ainda mais intensa e imprevisível.
Repertório e Influência
O repertório do Vinicius Mendes Quarteto foca em duas fases fundamentais da carreira de Coltrane: os “Coltrane changes” e a fase modal. Entre as faixas selecionadas, estão clássicos dos álbuns “My Favorite Things” (1961), “A Love Supreme” (1964) e “Transition” (1970). Além das inovações harmônicas, Mendes destaca o aspecto espiritual da obra de Coltrane, especialmente em “A Love Supreme”, que dialoga com as raízes do jazz, como spirituals, work songs e blues.
No contexto dessas músicas, há uma forte conexão entre a prática religiosa e a expressão musical, onde melodias emocionais e coletivas transmitem fé e resistência. As work songs, cantadas por trabalhadores negros, trazem um ritmo repetitivo que conecta o corpo ao som, enquanto o blues consolida essa herança em uma forma musical que expressa experiências individuais.
“Na música de Coltrane, há uma poética semelhante ao canto”, observa Vinicius Mendes. “Mesmo quando a forma é livre, o blues está sempre presente”, ele conclui.
A Influência Contemporânea
A herança de John Coltrane ainda reverbera na música atual, inclusive no Brasil. O pianista Amaro Freitas é mencionado por Vinicius Mendes como um exemplo de artista que dialoga com essa tradição. O próprio Vinicius se inspira nas características de Coltrane em suas produções autorais, explorando a liberdade de criação e a performance coletiva. “Coltrane realmente elevou o jazz a um novo nível”, finaliza o saxofonista.

