Artistas em Foco na Bienal de Veneza
Após um hiato desde a edição de 2017, a Bienal de Veneza reabriu suas portas ao público, trazendo à tona a série “Juntó” e uma nova proposta curatorial sob a liderança de Koyo, que se destaca pela inclusão de vozes do Sul Global. O artista baiano Heráclito, que esteve próximo de Koyo antes de sua morte, reflete sobre a importância desta edição. Em sua visão, a curadoria não apenas homenageia a memória dela, mas também aborda as questões geopolíticas contemporâneas, marcadas por guerras e imperialismos. Segundo Heráclito, esta é uma bienal que desafia os estigmas associados à arte não ocidental, reafirmando a maturidade das obras apresentadas.
O artista destaca que a presença de países que antes não participavam do evento enriquece o diálogo na Bienal. ‘Estar aqui me fez perceber como as origens diversas se conectam através da ancestralidade’, comenta Neves, um dos participantes, realçando a troca cultural que se estabelece neste espaço.
Representatividade e Novas Perspectivas
Além da presença de três artistas brasileiros na mostra principal, o pavilhão do Brasil, sob a curadoria de Diane Lima, apresenta obras de figuras proeminentes como Rosana Paulino e Adriana Varejão. O título da exposição, “Comigo ninguém pode”, emprestado de uma obra de Rosana Paulino, traz à tona diferentes simbologias relacionadas à planta de mesmo nome, abordando temas que vão desde o colonialismo até a relação com a natureza.
Diane Lima destaca a relevância de ter uma curadoria negra nesta edição. ‘Três mulheres, sendo uma artista negra, desafiam a representação da arte brasileira’, afirma. Ela observa que a mostra está em sintonia com as expectativas globais de um país que, ao mesmo tempo que enfrenta suas violências históricas, também desenvolve novas estratégias para lidar com elas.
Interpretações e Conexões entre Passado e Presente
A artista Adriana Varejão, que tem suas obras associadas ao barroco, explana o conceito de teatro como metáfora para suas criações. ‘Utilizei a teatralidade para simular ruínas, deixando vestígios nas paredes. Este ano, minha abordagem se expande ao incorporar elementos vegetais’, diz. Essa intertextualidade com o trabalho de Rosana Paulino revela um diálogo profundo entre suas práticas artísticas.
Outro ponto que merece destaque é a relação entre história e atualidade, abordada por Adriana ao relembrar a escravidão e seu legado. ‘Observamos que, enquanto falamos do passado, ainda hoje existem barcos interceptados, refletindo um presente que ressoa com eventos históricos’, ressalta, enfatizando a importância da narrativa no contexto artístico.
A Bienal também conta com a participação do carioca Raphael Fonseca, que, ao lado da paulistana Amanda Carneiro, assume a curadoria da 37ª Bienal de São Paulo. Ele é responsável pelo Pavilhão de Taiwan, intitulado “Screen melancholy”, que apresenta obras do artista Yi-Fan Li. Essa mistura de perspectivas promete enriquecer ainda mais o diálogo sobre arte contemporânea.

