O Início da Violência
O feminicídio não é um evento isolado que se inicia com um disparo ou uma facada. Sua gênese está muito antes, quando a sociedade ensina os homens a confundirem amor com controle, ciúme com direito de vigilância e rejeição com humilhação intolerável. Nos casos de feminicídio, o assassinato muitas vezes já havia sido precedido por ameaças, perseguições e agressões psicológicas, criando um ambiente de terror no cotidiano das vítimas. Esta forma extrema de violência é o resultado final de uma longa cadeia de abusos, que por muitos anos foi minimizada como “problema de casal” ou “briga doméstica”. O que está em jogo não é paixão, mas sim poder, posse e punição.
A cor que simboliza esse crime é um vermelho profundo, quase oxidado. Não se trata do vermelho vibrante associado à paixão romântica, mas do tom escuro da violência que se repete em lares comuns, cozinhas e quartos. O feminicídio raramente acontece de forma impulsiva; ele se desenvolve lentamente, alimentado por relações marcadas por vigilância, dependência emocional e ciúmes que são, de forma errônea, interpretados socialmente como prova de amor. Uma cultura que ainda aceita o controle masculino sobre a vida das mulheres perpetua essa realidade.
Um Caso que Chocou
Leia também: Homem é Capturado por Suspeita de Feminicídio em SP: Crime Acontece Após Medida Protetiva
Leia também: Transformação da Marginal Tietê: Um Memorial Contra o Feminicídio em São Paulo
Esse padrão de comportamento se manifestou tragicamente no caso da professora de educação física Larissa Rodrigues, de 37 anos, assassinada em março de 2025 em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. De acordo com investigações da Polícia Civil, seu ex-companheiro não aceitava o término do relacionamento e já havia exercido controle emocional e intimidação. Amigos de Larissa relataram que ela estava cada vez mais assustada nas semanas que antecederam sua morte. O caso gerou grande comoção na cidade, evidenciando sinais que foram ignorados até que a violência culminasse em um desfecho trágico.
No dia do ocorrido, vizinhos ouviram gritos vindos do apartamento de Larissa, seguidos de um silêncio inquietante. Ao entrarem no local, os policiais encontraram Larissa morta na cozinha. O suspeito foi detido e o caso começou a ser investigado como feminicídio. A brutalidade deste crime destaca um padrão alarmante no Brasil: mulheres ameaçadas anteriormente, familiares alerta e episódios de violência conhecidos, enquanto instituições falham em interromper a escalada da violência doméstica antes que a situação se torne letal.
Legislação e Realidade no Brasil
A Europa começou a encarar o feminicídio como um fenômeno jurídico e político nos anos 90, com apoio de estudos sobre violência doméstica realizados na Espanha e na Itália. A Espanha se destacou com a criação da Lei Orgânica de Medidas de Proteção Integral contra a violência de gênero, em 2004, que estabeleceu tribunais especializados e políticas integradas de proteção. Convenções internacionais, como a de Istambul, em 2011, reafirmaram que assassinatos de mulheres por questões de gênero demandam tratamento penal específico.
Leia também: Feminicídio em Morro Agudo: Homem Revela Desejo Macabro em Áudio Após Morte da Ex-Mulher
Leia também: Feminicídio: Mulher Morta em Lanchonete no Interior de SP; Assista ao Vídeo
No Brasil, a mudança legislativa ocorreu em 2015, com a aprovação da Lei nº 13.104, sancionada pela então presidente Dilma Rousseff, que incluiu o feminicídio como uma circunstância qualificadora do homicídio. Esta nova lei reconheceu que o assassinato de mulheres ocorre precisamente por serem mulheres, especialmente em contextos de violência doméstica.
Números Alarmantes
Os dados sobre feminicídio no Brasil são alarmantes. Desde 2015, ao menos 13.703 mulheres foram vítimas desse crime. Somente em 2025, o país registrou 1.568 casos, o maior número já documentado, o que representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. É importante notar que mulheres negras correspondem a mais de 62% das vítimas.
No entanto, a legislação brasileira possui lacunas significativas. Uma das principais falhas é a falta de uma rede nacional eficaz para prevenção e monitoramento de risco. Muitas mulheres assassinadas tinham medidas protetivas ativas, mas ainda assim não conseguiram evitar o pior. Outro ponto crítico é a insuficiência das delegacias especializadas, especialmente em áreas menos urbanizadas. Além disso, a interpretação cultural e judicial das ameaças ainda é problemática, com decisões que minimizam a gravidade do controle masculino e o caracterizam como “conflito conjugal”.
A Cultura da Violência
O feminicídio revela não apenas a brutalidade dos homens que cometem esses crimes, mas também a lentidão das instituições, a omissão histórica do Estado e a falência moral de uma cultura que ainda ensina que perder o controle sobre uma mulher é perder a honra. Enquanto as ameaças forem tratadas como exageros, as perseguições como ciúmes e as agressões como desentendimentos privados, o Brasil continuará a contar corpos femininos, tragicamente habituado ao horror.

