A simbologia do branco na cultura japonesa
No Japão, a cor branca carrega uma riqueza simbólica única, inserida na tradição cromática conhecida como Nihon no dentōshoku, que significa “cores tradicionais do Japão”. Essa tonalidade é associada a sentimentos profundos como paz, purificação, leveza, silêncio e precisão, elementos presentes no imaginário cultural nipônico. É justamente essa cor que orienta a exposição “Shiro: uma escala de nuances” (com “shiro” significando “branco” em japonês), aberta ao público a partir de 2 de junho na Japan House São Paulo (JHSP). Com entrada gratuita, a mostra fica em cartaz até 25 de outubro, no andar térreo da instituição.
Curadoria e inspiração da exposição
Organizada pela diretora cultural da Japan House São Paulo, Natasha Barzaghi Geenen, a exposição apresenta diferentes tonalidades do branco presentes na cultura japonesa, divididas em quatro elementos: papel, seda, neve e sal. A curadora baseou o conceito da mostra na leitura do livro “O País das Neves” (1948), de Yasunari Kawabata, que retrata as vastas paisagens brancas do norte do Japão e o processo de alvejamento de tecidos na neve. Natasha explica que “Shiro não nasce de um conceito fechado, mas de uma inspiração poética e abstrata. O branco, que reúne todas as cores, serve como ponto simbólico para refletir sobre as nuances e sutilezas que o Japão carrega, um país de diversas gamas de branco que muitas vezes passam despercebidas, menos para o olhar atento do povo japonês”.
Os quatro núcleos temáticos e suas obras
A exposição é estruturada em quatro núcleos temáticos, cada um dedicado a um dos elementos que representam as várias facetas do branco no Japão. Logo na entrada, os visitantes são recebidos por uma tabela cromática com 19 tons de branco catalogados no país, ilustrando as delicadas diferenças existentes nessa única cor, dentre as centenas da tradição japonesa.
No núcleo Papel, a artista Ayumi Shibata apresenta a instalação “Poem of life”, composta por inúmeras folhas de papel recortadas pela técnica de kiri-ê e unidas, simbolizando seu desejo por paz e harmonia mundial. A obra, com cerca de três metros de altura, brinca com a interação entre luz e sombra a partir de um espelho posicionado na base. Também são exibidos detalhes do processo artesanal do Kurotani Washi, papel tradicional japonês feito à mão, incluindo amostras das fibras Kōzo, Mitsumata e Gampi que dão origem ao washi.
No núcleo Seda, Kaoru Hirano traz a obra “untitled-grandmother”, criada especialmente para a mostra. A artista utiliza um juban branco de seda — uma peça tradicional usada por baixo do quimono — pertencente à sua avó paterna, falecida em 2018, para montar uma instalação suspensa que remete a uma teia. Com quase quatro metros de diâmetro, a obra reflete sobre memória afetiva e os laços familiares, desconstruindo e reconstruindo relações por meio do tecido. Além da instalação, o público pode conhecer casulos do bicho-da-seda, fios e tecidos da província de Gunma, reconhecida pela produção de seda, acompanhados por um vídeo explicativo sobre essa confecção no Japão.
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Neve e Sal: paisagens e tradições
O núcleo Neve destaca as paisagens do norte japonês, onde invernos rigorosos criam um branco infinito, conforme descrito na obra de Kawabata. O artista Tomohiro Kajiyama apresenta três fotografias de suas intervenções de Land Art, chamadas “Snow Art”, além de um vídeo que mostra o processo de criação. Suas obras são feitas caminhando livremente sobre a neve com pequenos esquis, traçando linhas complexas que só podem ser plenamente apreciadas de cima. Estas efêmeras criações ocupam cerca de 100m² cada, nascendo no silêncio congelante do amanhecer e se estendendo pela tarde, às vezes por vários dias. Kajiyama revela que cada passo na neve representa sua filosofia de esculpir a vida com positividade, mesmo diante das dificuldades, segundo a curadora.
O sal, elemento tão presente na cultura japonesa, fecha a exposição. Apesar de o Japão ser cercado por mar, seu ambiente dificulta a produção natural de sal, que tradicionalmente é feito em duas etapas: concentração da água do mar em salinas e evaporação por fervura. Este método tradicional ainda é usado, embora a produção seja majoritariamente industrial. O sal é usado como tempero, conservante e também possui papel ritualístico na religião xintoísta. A prática popular chamada morishio consiste em formar pequenos montes de sal nas entradas de casas e santuários para atrair sorte e afastar maus espíritos. A mostra apresenta cinco tipos diferentes de sal de várias regiões do Japão, evidenciando suas características únicas.
Acessibilidade e informações práticas
Como parte do programa JHSP Acessível, a exposição oferece recursos inclusivos, incluindo um WebApp com conteúdos acessíveis e textos traduzidos para inglês, espanhol e japonês, além de recursos táteis, audiodescrição e vídeos em Libras, garantindo que todos os visitantes possam aproveitar a experiência.
Conheça os artistas em destaque
Ayumi Shibata, natural de Yokohama, é artista especializada em kiri-ê, técnica japonesa de recorte. Formada na National Academy School of Fine Arts em Nova Iorque, desenvolveu carreira internacionalmente, incluindo um período em Paris, onde participou de projetos no Atelier 59 Rivoli. Desde 2018, mantém suas atividades baseadas no Japão.
Kaoru Hirano, de Nagasaki, tem doutorado pela Universidade Municipal de Hiroshima e é reconhecida por criar instalações a partir do desfazer e reconstruir de roupas e objetos, explorando memórias e relações sociais. Com residências artísticas em Nova Iorque e Berlim, recebeu bolsas importantes, incluindo a Fundação Adolph e Esther Gottlieb em 2025.
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Fonte: daquibahia.com.br
Tomohiro Kajiyama, nascido em Shizuoka, mudou-se para Hokkaido em 2018 para redescobrir recursos locais. Desde 2019, produz “snow art” de forma autodidata, criando obras que se destacam pela caminhada livre sobre a neve, que refletem uma filosofia de vida baseada na superação e criatividade.
Detalhes para visitação
Exposição: “Shiro: uma escala de nuances”
Período: 2 de junho a 25 de outubro de 2026
Local: Japan House São Paulo, andar térreo – Av. Paulista, 52 – São Paulo/SP
Horário: terça a sexta, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h
Entrada: gratuita
Sobre a Japan House São Paulo
Inaugurada em 30 de abril de 2017, a Japan House São Paulo é um espaço dedicado a ampliar o conhecimento sobre a cultura japonesa contemporânea e divulgar políticas governamentais ligadas ao país. Foi a primeira unidade a abrir em âmbito internacional, seguida por outras em Londres e Los Angeles. Localizada na Avenida Paulista, a instituição destaca-se pela fachada projetada pelo arquiteto Kengo Kuma, que incorpora a tradicional arte japonesa do encaixe em madeira Hinoki.
Desde sua inauguração, a JHSP realizou mais de 50 exposições e cerca de mil eventos nas áreas de arquitetura, tecnologia, gastronomia, moda e arte, totalizando mais de 4,7 milhões de visitantes. Durante a pandemia de Covid-19, ampliou sua presença digital, alcançando mais de sete milhões de pessoas em 2020, e expandiu suas atividades para outras regiões do Brasil e América Latina. A Japan House São Paulo é certificada pela LEED na categoria Platinum, o mais alto nível de sustentabilidade para edifícios.

