Entre o cururu e as batalhas de rap: raízes que se entrelaçam
De um lado, o cururu, expressão tradicional da cultura caipira, onde versos são improvisados e acompanhados pela viola. Do outro, as batalhas de rap, com MCs que criam rimas instantâneas sobre batidas hip hop. Para o rapper Matuto S.A., natural de Franca (SP), esses dois universos se unem na palavra, na improvisação e na arte de contar histórias. Essa conexão foi fundamental para o desenvolvimento do álbum “Terra Vermelha: Do interior pro interior”, que ganhou indicação ao Grammy Latino 2026.
O disco concorre na categoria Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa, e Matuto enfrenta nomes como AJULLIACOSTA, Budah, Don L e Emicida na disputa. A cerimônia acontecerá em 12 de novembro, em Las Vegas, nos Estados Unidos.
Uma sonoridade que mistura o urbano e o interiorano
Vinicius Comparini, nome de batismo do artista, define seu estilo como “regional beat”, uma fusão que traz bases urbanas combinadas com a viola caipira, trompete e influências de gêneros como reggae, jazz, samba e samba-rock. Essa mistura traduz um encontro entre o som da cidade e da roça, criando um cenário musical único.
A aproximação entre o hip hop e a cultura caipira tomou forma a partir das pesquisas de Matuto para compor suas músicas. Ele conheceu o cururu por meio do poeta Carlos de Assumpção, de Franca, que destacou a tradição de cantadores que improvisam versos acompanhados pela viola em cidades do interior paulista.
Para Matuto, a dinâmica do cururu dialoga diretamente com as batalhas de rima do hip hop: “Quando descobrimos que existia o cururu, com batalhas de rimas feitas por pessoas de Tietê, Capivari e Piracicaba usando a viola caipira, percebemos uma ligação forte com as batalhas de rap”.
Leia também: Da Arábia ao Interior: A Viola como Símbolo da Cultura Caipira
Fonte: agazetadorio.com.br
Pesquisa e referências que alimentam o trabalho
Essa descoberta ampliou a visão do rapper sobre as conexões entre a cultura urbana e a rural. A pesquisa é parte essencial da formação dos MCs, que buscam referências e trechos de outras músicas para criar suas bases, os chamados samples.
“O rap sempre estimulou a pesquisa, a busca por samples de jazz, reggae, black music brasileira, samba-rock e samba. Tudo isso compõe nossa formação e aparece no trabalho de alguma forma”, explica Matuto.
O trompete como elo musical
Além da viola caipira e das batidas hip hop, o trompete ganhou destaque na sonoridade do álbum. Matuto percebeu o instrumento em samples usados no rap, especialmente em “Vida Loka, Parte 2”, dos Racionais MC’s.
“Fiquei fascinado com o trompete presente nos samples de rap e pensei que introduzi-lo nas minhas apresentações tornaria tudo mais interessante”, conta ele. A influência do reggae, que valoriza os metais, também contribuiu para a presença do trompete nas músicas e shows.
O instrumento passou a dividir espaço com as rimas e as referências caipiras, marcando tanto as gravações quanto as apresentações ao vivo.
De Tião Carreiro a Black Alien: influências que atravessam gêneros
As inspirações de Matuto revelam a diversidade que compõe o álbum. No rap, destaca-se Black Alien, enquanto na cultura caipira aparecem nomes como Tião Carreiro e Rolando Boldrin.
Embora esteja no hip hop há cerca de dez anos, o artista iniciou o projeto de fusão com a cultura regional em 2023. Em 2025, o álbum “Terra Vermelha: Do interior pro interior” foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural de São Paulo (ProAC) e lançado em 17 de março de 2026, dia do aniversário de Matuto.
Antes da indicação ao Grammy Latino, o disco foi incluído na lista da Billboard Brasil dos 50 melhores álbuns do primeiro semestre de 2026.
A pesquisa do rapper também o levou ao festival João Rock, em Ribeirão Preto (SP), ampliando a circulação do trabalho. Agora, Matuto S.A. representa Franca em uma categoria com artistas reconhecidos nacionalmente, enfatizando a força da cena regional no cenário musical brasileiro.

