Desenvolvimento do Cultivo de Cacau em São Paulo
Tradicionalmente cultivado nos estados do Pará e da Bahia, o cacau começa a conquistar novas áreas agrícolas no Brasil, e São Paulo é um dos principais protagonistas dessa mudança. Há cinco anos, a produção de cacau no estado era inexistente, mas atualmente já são cerca de 650 hectares dedicados à cultura, com áreas que estão começando a entrar em produção. Especialistas do setor preveem que, em até uma década, a área plantada poderá chegar a impressionantes 3 mil hectares.
No estado, aproximadamente 120 propriedades estão envolvidas na produção da amêndoa, a maior parte concentrada na região de São José do Rio Preto, localizada no noroeste paulista. No entanto, há também produtores em várias outras cidades, como Vale do Ribeira, Araraquara, Ribeirão Preto, Araçatuba, Barra Bonita e até em Jundiaí, próxima à capital. Atualmente, 66 municípios estão engajados na cultura do cacau.
Um exemplo de agricultores que apostam nessa nova cultura é Ricardo Paulino de Oliveira, do Sítio Fragole, em Jundiaí. Com 49 anos de experiência no cultivo de morangos, ele decidiu diversificar sua produção. “Não queria depender apenas do morango. Se algo comprometer uma safra inteira, como fico?”, questiona ele, evidenciando a necessidade de diversificação no campo.
Após realizar pesquisas, Ricardo optou por investir no cacau e já plantou cerca de 600 árvores, com planos de expandir para 2 mil. Empolgado com essa nova empreitada, ele ainda lançou sua própria marca de chocolate, a Cacao di Fragole.
Cacau Paulista e a Superação de Crises
A história do cultivo do cacau em São Paulo remonta a uma crise enfrentada em 2011. Naquela época, os agricultores de seringueira da região, que representavam cerca de 60% da produção nacional de borracha, estavam perdendo receitas devido à queda nos preços, resultando na saída de muitos produtores do campo.
O cacau, que necessita de sombra nos primeiros três anos de vida, foi sugerido como uma opção. “Muitos achavam que era uma loucura”, relembra Miqueletti. Afinal, poderia um cultivo tão associado à Bahia e ao Pará prosperar no Noroeste paulista? Surpreendentemente, a localidade possui um clima quente e úmido, similar ao das regiões tropicais, o que favoreceu o cultivo de cacau.
Experimentos realizados por um produtor local, que cultivou cacau junto a bananeiras, mostraram resultados promissores, estimulando a pesquisa na área. Após longas tentativas e erros, um manejo bem-sucedido foi desenvolvido em oito anos. “Descobrimos a melhor forma de cultivar o cacau entre as seringueiras e outros cultivos, como bananeiras e abacateiros”, comemora Miqueletti.
Crescimento e Oportunidades no Setor
Embora a Cati tenha aprimorado o manejo do cacau paulista em 2019, o entusiasmo dos agricultores começou a crescer apenas em 2024, quando o governo lançou o programa Cacau SP. “Alguns produtores iniciaram experimentos em 2019, e três anos depois, as plantas começaram a produzir, despertando a curiosidade de mais agricultores”, explica Miqueletti.
Com a nova iniciativa do estado, a ideia é incentivar o cultivo de cacau entre produtores de laranja, que estão enfrentando problemas relacionados ao “greening”, uma praga identificada em 2024 que já atingiu 47,6% das laranjeiras em São Paulo.
No sul do estado, tentativas anteriores de implantar a cultura do cacau, realizadas pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), não tiveram êxito nas décadas de 70 e 80. “Naquela época, não contávamos com as tecnologias e conhecimentos que temos hoje”, conclui Miqueletti.
Um Novo Começo com a Tradição
A história do cacau em São Paulo ganhou um novo impulso com a chegada da família Guarin, que se mudou da Colômbia em 2022. “Soube que a Apta estava resgatando a cultura do cacau no Vale do Ribeira e decidimos vir fazer o que nossa avó já fazia: chocolate”, conta o colombiano.
Ele revitalizou um cacaual antigo, com mais de 5 mil pés abandonados, herdados do projeto do IAC, e criou a marca de chocolates Macondo. Agora, Guarin busca ajudar outros pequenos produtores da região, comprando sua produção e transformando as amêndoas em chocolate. “Temos o conhecimento necessário e estamos prontos para revolucionar a cultura do cacau aqui, contribuindo significativamente para a economia local,” conclui.

