O Dia Mundial do Rock e a resistência autoral em Ribeirão Preto
Celebrado em 13 de julho, o Dia Mundial do Rock é uma data que, apesar do nome, existe apenas no Brasil. Criada na década de 1990 por emissoras de rádio especializadas, essa homenagem se consolidou no calendário cultural nacional, mesmo sem reconhecimento internacional. Em Ribeirão Preto, essa data reflete uma cena autoral que persiste há décadas graças ao empenho conjunto de bandas, produtores e fãs.
Bandas como Tormenta, Necrofobia, Abiosi, Inanimalia, Santa Cora e Violência Moral ilustram a diversidade do rock e do metal locais. Porém, elas enfrentam um cenário dominado por apresentações de bandas cover nas casas de show, que atraem maior público e garantem mais recursos. Embora não desmereçam o trabalho dos covers, os grupos autorais, especialmente os do underground, batalham diariamente para manter sua presença e produção em um mercado cada vez mais restrito.
Desafios do mercado musical e a busca por espaço
Os dados do mercado musical ajudam a entender essa realidade. Nos últimos dez anos, o sertanejo lidera o Spotify no Brasil, com sete dos dez artistas mais ouvidos, seguido pelo funk e forró. No ranking semanal da Billboard Brasil, o único representante do rock entre os 25 mais ouvidos é o Charlie Brown Jr., na 20ª posição. Para André Spinola, o Jack, dono da Toca do Jack — uma das principais casas dedicadas ao rock autoral e underground em Ribeirão Preto —, manter um espaço focado nesse segmento virou um verdadeiro ato de resistência. “A renovação do público é bastante limitada. O rock não recebe destaque na mídia, o que dificulta bastante”, analisa. Essa preferência pelo cover acaba moldando a programação, já que a nostalgia atrai mais público.
O radialista e pesquisador José Carlos Andreotti Pimentel, conhecido como Zé do Rock, concorda que encontrar espaços para repertório original ainda é um dos maiores desafios para as bandas locais. Enquanto antes havia maior disposição em apostar em artistas autorais, hoje muitos estabelecimentos preferem atrações que toquem sucessos consagrados. Por outro lado, ele destaca que o ambiente digital abriu novas oportunidades. Plataformas de streaming e redes sociais permitem que bandas do interior alcancem ouvintes em todo o país, criem público e desenvolvam fontes de renda por meio de shows, venda de produtos e parcerias. “A banda precisa entender que seu projeto funciona como uma empresa”, afirma.
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Coletividade e o fortalecimento da cena local
Com as mudanças no mercado, a cena também se adaptou. Muitas bandas deixaram de depender exclusivamente de produtores e casas de show, optando por organizar seus próprios festivais e dividir estrutura, público e divulgação. Zé do Rock vê nessa união um fortalecimento da cena local: “Tenho observado muitos eventos organizados por essas bandas em parceria. Toda cena cultural nasce dessa colaboração.” Jack reforça que esse espírito coletivo ainda pode avançar. Segundo ele, muitos músicos pedem oportunidades para tocar, mas não frequentam apresentações de outras bandas autorais. “A união faz a força. Se todas as bandas participarem e ajudarem na divulgação dos eventos umas das outras, a situação pode mudar”, defende.
O underground e a trajetória da Lusferus
Entre as bandas que sustentam essa cena está a Lusferus, de Black Metal, que completa 19 anos de atividade. Atuando em um dos nichos mais restritos do metal, o grupo superou mudanças de mercado, público e comportamento sem abandonar sua essência. Para o baterista Ivaldo Abreu, a permanência da banda não se explica por ganhos financeiros. A experiência de grupos veteranos como Abiosi e Necrofobia serve de referência para os novos artistas, que dividem palcos e aprendem sobre produção, organização e resistência, segundo Zé do Rock.
Ivaldo faz um alerta: apesar do surgimento de uma nova geração talentosa em Ribeirão Preto, segmentos mais específicos, como o metal extremo, podem perder espaço nos próximos anos. A longevidade da Lusferus está ligada à identidade construída e à paixão dos músicos, mesmo diante da falta de incentivo financeiro. “A cena autoral no Brasil enfrenta muitos obstáculos. Defender a própria verdade e seguir pela paixão é o que mantém uma banda viva”, resume. Ainda assim, ele acredita que o futuro depende do surgimento de novos grupos capazes de assumir esse legado.
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Fonte: odiariodorio.com.br
Renovação e desafios da nova geração
A renovação da cena já é visível. Bandas como The Voodoos, formada por músicos na faixa dos 20 anos e focada no Nu Metal, buscam equilibrar repertório autoral e covers para conquistar espaço. O guitarrista Kelvin Costa aponta que muitos bares ainda preferem atrações que toquem músicas conhecidas, dificultando a inserção de trabalhos inéditos. “Até as maiores bandas começaram como grupos autorais locais”, lembra.
Para Kelvin, é preciso encontrar um equilíbrio para atrair o público com versões familiares e, aos poucos, apresentar músicas próprias. Ele também percebe certa distância entre as gerações, resultado das diferenças de estilo e público, o que por vezes dificulta a participação conjunta em eventos.
Essa dinâmica mostra que, mesmo diante dos desafios, a cena autoral de rock e metal em Ribeirão Preto se mantém ativa e em transformação, graças à dedicação dos músicos e à busca constante por espaço e reconhecimento.

