Mudanças no Sisu e o Impacto nas Vagas de Medicina
O panorama dos cursos de medicina nas universidades federais do Brasil apresenta uma nova realidade: um aumento significativo no número de vagas não preenchidas na chamada regular do Sisu 2026. Este fenômeno, inédito em comparação aos anos anteriores, acendeu um sinal de alerta entre educadores e especialistas. A UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), reconhecida pela alta concorrência em sua graduação de medicina, registrou a quarta maior nota de corte da área nesta edição, mas encaminhou 97 de suas 200 vagas para a lista de espera. Vale lembrar que, em 2025, esse número foi de 47 e, em 2024, 57. Já em Macaé, 39 das 60 vagas disponíveis ficaram abertas. Em contrapartida, nos anos anteriores, apenas 15 vagas não foram ocupadas em 2025 e 18 em 2024.
As listas de espera foram divulgadas pelas instituições a partir de 11 de fevereiro, mas ainda não há dados conclusivos que expliquem esse movimento crescente. Entre as hipóteses levantadas, especialistas citam a recente mudança no regulamento do sistema, que agora permite o uso da melhor nota entre as três últimas edições do Enem. Essa nova regra, segundo os professores, pode ter incentivado candidatos a concorrerem a vagas sem a intenção real de efetivar a matrícula.
João Vianney, consultor em ensino superior e sócio da Hoper Educação, enfatiza que a mudança não foi acompanhada por mecanismos que restringissem a participação de estudantes já matriculados em outras instituições públicas. “Sem a exigência de compromisso imediato, alguns candidatos estão utilizando a inscrição no Sisu como se fosse um jogo”, observa Vianney.
Desempenho na UFMG e Reflexos em Outros Cursos
Na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o cenário é semelhante. A lista de espera divulgada em 19 de fevereiro revelou que o curso de medicina encaminhou 133 vagas à lista de espera na primeira chamada de 2026. Para comparação, em 2025 foram 95 e em 2024, 80, sendo que a universidade oferece 320 vagas anuais. Desses, 52 aprovados na chamada regular utilizaram notas de edições anteriores do Enem.
A UFMG, por sua vez, optou por aguardar a conclusão das etapas de registro e matrícula para avaliar os impactos da nova regra. A instituição ressalta que o Sisu é um processo dinâmico e que a cautela é necessária antes de estabelecer uma relação direta entre as mudanças e a ocupação das vagas.
O fenômeno das vagas não ocupadas não se limita apenas ao curso de medicina. Na UFRJ, a maioria dos cursos registrou um aumento no número de vagas encaminhadas à lista de espera. O curso de direito, por exemplo, viu o total na lista crescer de 181 para 235, um acréscimo de 54 vagas, refletindo uma preocupação generalizada com o tema.
Resposta do MEC e Fatores Estruturais em Jogo
Consultado sobre a situação, o Ministério da Educação (MEC) afirmou que o ciclo de matrículas está em andamento e que as análises sobre a ocupação de vagas dependem da consolidação dos dados em nível nacional. O ministério também destacou que acompanha os indicadores do processo seletivo e que fará avaliações técnicas ao final das convocações.
Além das mudanças no Sisu, outros fatores podem estar contribuindo para o aumento das vagas não preenchidas. A alta do custo de vida nas grandes capitais, a ampliação da oferta no ensino privado e a possibilidade de manter matrícula em outra instituição enquanto se espera a reclassificação são elementos que influenciam as decisões dos candidatos. Gustavo Bruno de Paula, pesquisador na área, destaca que o Sisu já era associado ao aumento da evasão e das vagas ociosas, permitindo escolhas estratégicas que podem não refletir as verdadeiras intenções dos alunos.
Para Vianney, a nova regra pode ter exacerbado esse comportamento, um aspecto que o MEC não previu. A liberação do uso de notas anteriores pode impulsionar decisões precipitadas. Vinícius Figueiredo, do colégio Bernoulli, observa que a alta rotatividade de vagas na UFMG é atípica e não reflete desinteresse, mas sim um efeito colateral das novas regras.
No Rio, Rafael Galvão, diretor pedagógico da Rede Alfa CEM Bilíngue, também vê a mudança como um fator que pode ter inflacionado as notas de corte, levando candidatos a desistirem antes mesmo da divulgação da lista de espera. Eduardo Calbucci, do Curso Anglo, complementa que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas sobre o fenômeno. Para ele, uma transição mais gradual nas regras poderia ter ajudado a preparar as futuras turmas.

