Impactos Profundos do Estresse na Adolescência
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – De acordo com um estudo conduzido na Universidade de São Paulo (USP), situações de estresse vividas durante a adolescência têm o potencial de provocar alterações cerebrais mais significativas e duradouras do que aquelas que ocorrem na idade adulta. A pesquisa, que foi publicada na respeitada revista Cerebral Cortex, revelou um mecanismo neurológico que lança novas luzes sobre a origem de transtornos psiquiátricos, como a depressão e a esquizofrenia.
Os cientistas descobriram que a exposição ao estresse na adolescência pode afetar o equilíbrio dos neurônios, prejudicando a maturação das redes neurais, o que, por sua vez, aumenta a vulnerabilidade a disfunções cerebrais que podem se prolongar até a vida adulta. A pesquisa, apoiada pela FAPESP, demonstrou que o estresse na adolescência altera de forma permanente os circuitos do córtex pré-frontal, uma região cerebral crucial para o controle emocional e as funções cognitivas.
Desregulação Cerebral e suas Consequências
De acordo com os pesquisadores, traumas ocorridos nesta fase da vida desregulam o equilíbrio entre os sinais de excitação e inibição no cérebro, comprometendo a estabilidade funcional deste órgão vital. Em contraste, entre os roedores adultos, o cérebro mostrou-se mais resistente, apresentando mecanismos de recuperação que tornaram os efeitos do estresse mais passageiros.
Felipe Gomes, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coordenador do estudo, explica: “Estudos epidemiológicos anteriores já demonstraram que o impacto do estresse severo é mais acentuado na adolescência. Em nossa pesquisa, comprovamos que ele causa desequilíbrio na comunicação entre as células cerebrais nas duas fases da vida. Contudo, como o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, há uma falta de proteção suficiente contra esse impacto.”
Metodologia da Pesquisa
No decorrer do estudo, ratos machos foram submetidos a um protocolo de estresse por dez dias, envolvendo choques nas patas e restrição de movimento. As análises foram realizadas em dois grupos distintos: um composto por ratos em fase adolescente (31 a 40 dias de vida) e outro por roedores adultos (65 a 74 dias).
Após a exposição ao estresse, os cientistas investigaram as alterações de curto e longo prazo na atividade dos neurônios excitatórios (piramidais glutamatérgicos) e inibitórios (interneurônios GABAérgicos) presentes no córtex pré-frontal medial. Nos ratos adolescentes, foi observado um aumento persistente na atividade dos neurônios excitatórios, além de mudanças duradouras no funcionamento dos neurônios inibitórios. O resultado gerou um desequilíbrio contínuo, como se o cérebro estivesse acelerado, sem um “freio” funcional.
Resiliência do Cérebro Adulto
Nos roedores adultos, o estresse apenas levou a uma redução temporária na atividade dos interneurônios inibitórios e não gerou a hiperexcitabilidade observada entre os adolescentes. Isso possibilitou que o cérebro se reequilibrasse após a fase de estresse. Gomes ressalta que “o estudo também revelou que o mau funcionamento dos interneurônios influenciou os ritmos elétricos cerebrais. Nos adolescentes, foi identificada uma redução duradoura nas oscilações gama, que são essenciais para processos cognitivos superiores, como atenção e memória de trabalho, frequentemente prejudicados na esquizofrenia.”
Mecanismos Neurais e Implicações para a Saúde Mental
Pesquisas anteriores do mesmo grupo já haviam indicado que o estresse na adolescência poderia induzir comportamentos semelhantes aos da esquizofrenia, enquanto o estresse na vida adulta estava mais relacionado a alterações associadas à depressão. Flávia Alves Verza, que investiga a temática em seu pós-doutorado apoiado pela FAPESP, afirma: “Nosso trabalho avança na compreensão dos mecanismos neurais que diferenciam esses impactos, mostrando que o momento da vida em que o estresse ocorre é decisivo para o tipo e a duração das mudanças nos circuitos do córtex pré-frontal.”
Além de compartilhar a exposição ao estresse como um fator de risco comum, cerca de 40% dos genes associados à esquizofrenia também estão ligados à depressão. “Assim, nosso novo trabalho corrobora a hipótese de que um indivíduo geneticamente predisposto pode desenvolver esquizofrenia se exposto a traumas na adolescência, enquanto o mesmo trauma na fase adulta pode desencadear depressão. Esses resultados enfatizam a importância de estratégias preventivas voltadas para adolescentes, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade emocional”, conclui Gomes.

