Instabilidade Global e Crescimento do Etanol
O mercado global de açúcar enfrenta um panorama desafiador, com previsões de déficits significativos para as duas próximas safras. A avaliação foi feita pelo presidente da Datagro, Plínio Nastari, durante a 10ª Abertura da safra de cana, açúcar e etanol, que acontece em Ribeirão Preto (SP) esta semana. A instabilidade geopolítica e a alta nos preços do petróleo reforçam a importância dos biocombustíveis, especialmente no Brasil.
De acordo com um levantamento da consultoria, que analisa dados de 122 países, o balanço global de açúcar para o ano comercial de 2025/26 deve apresentar um déficit de 800 mil toneladas. Já para 2026/27, essa discrepância entre oferta e demanda pode atingir impressionantes 2,7 milhões de toneladas.
Essas estimativas foram elaboradas com cautela, levando em conta um crescimento modesto do consumo global — de apenas 0,1% em 2025/26 e 0,35% em 2026/27. No entanto, esse cenário pode se agravar caso ocorram revisões negativas na produção da Índia, que é um dos principais produtores mundiais. A safra indiana, que inicialmente era projetada para ultrapassar 32 milhões de toneladas, pode acabar abaixo de 30 milhões.
Pressão nos Preços Internacionais do Açúcar
Apesar das previsões de déficit, os preços internacionais do açúcar continuam sob pressão. Os contratos futuros negociados em Nova York estão na faixa de 14,3 a 14,4 centavos de dólar por libra-peso. Quando convertidos para a moeda brasileira, o açúcar destinado à exportação está em torno de R$ 1.700 por tonelada, o que representa uma queda de cerca de 37,5% em comparação ao mesmo período do ano passado e 32,5% abaixo da média dos últimos cinco anos.
A forte posição vendida de fundos especulativos e as incertezas do mercado global são fatores que contribuem para essa redução nos preços.
Etanol se Destaca no Mix da Produção
No Brasil, a relação de preços está favorecendo a produção de etanol. O etanol hidratado chega aos produtores em São Paulo a cerca de R$ 3,00 por litro, enquanto o anidro é vendido a R$ 3,29 por litro. Além disso, estima-se que a gasolina nas refinarias brasileiras apresenta uma defasagem superior a 30% em relação ao mercado internacional, e o diesel tem uma diferença de cerca de 35%.
Esse cenário incentiva um mix de produção mais voltado para os biocombustíveis, com um direcionamento maior da cana-de-açúcar para a fabricação de etanol.
Consumo de Etanol se Mantém Resiliente
Mesmo diante de momentos de perda de competitividade em relação à gasolina, o consumo de etanol hidratado no Brasil segue forte, girando em torno de 1,6 bilhão de litros por mês. Para 2026, as projeções indicam um aumento robusto, com o consumo podendo saltar de 21,2 bilhões para 24,2 bilhões de litros, impulsionado pela expansão da frota de veículos flex e pela recuperação da competitividade ao longo da safra.
Atualmente, aproximadamente 45,6% da gasolina consumida no país é substituída por etanol em termos de equivalência energética — um índice muito acima de outros países. Estados como Mato Grosso e São Paulo estão na liderança desse movimento, com taxas de substituição de 67,2% e 58,9%, respectivamente.
Geopolítica e a Relevância dos Biocombustíveis
A guerra no Oriente Médio e as restrições ao transporte marítimo no Estreito de Ormuz têm um impacto direto nas perspectivas do setor energético. Especialistas afirmam que, em momentos de instabilidade global, a relevância de combustíveis produzidos localmente, como os biocombustíveis, tende a crescer.
Além do transporte rodoviário, o etanol começa a encontrar espaço em novos mercados, como combustíveis para navegação e aviação. A demanda potencial é expressiva: apenas uma grande empresa de navegação global poderia demandar até 3 bilhões de litros de etanol por ano para abastecer navios com motores que operem com biocombustíveis.
Brasil como Referência Global em Biocombustíveis
Apesar do aumento da produção de biocombustíveis em outros países, o Brasil continua sendo um modelo a ser seguido na substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis. O país mostra que é possível unir crescimento econômico e sustentabilidade, consolidando sua posição como líder global nesse setor.

