Estudo da USP Transforma Compreensão sobre Câncer de Cabeça e Pescoço
Um recente estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) trouxe à tona informações inéditas sobre o câncer de cabeça e pescoço, corrigindo uma longa estimativa sobre a presença de variantes desse tipo de tumor. Publicado na revista científica Annals of Diagnostic Pathology, a pesquisa analisou dados de mais de 1,4 mil pacientes e identificou que as variações tumorais ocorrem em menos de 5% dos casos, uma informação que contrasta fortemente com a estimativa de 15% utilizada pela medicina por décadas.
Além de identificar a frequência das variantes, o estudo revelou que a relação entre câncer de cabeça e pescoço e o vírus HPV no Brasil é de apenas 25%, bem abaixo dos 70% registrados na Europa e nos Estados Unidos. Essa discrepância exige a formulação de estratégias de tratamento mais adaptadas à realidade brasileira, permitindo que os oncologistas façam avaliações mais precisas sobre o risco de cada paciente e evitem tratamentos agressivos desnecessários.
Os pesquisadores Jorge Léon e Fernando Chahud, da USP em Ribeirão Preto (SP), apresentaram os dados com base em uma pesquisa internacional, oferecendo novas perspectivas sobre o manejo do câncer nessa região do mundo.
A Importância do Diagnóstico Preciso
O carcinoma espinocelular, que é o tipo de tumor mais comum na boca e na garganta, frequentemente tem baixas taxas de cura quando diagnosticado em estágios avançados. Um dos maiores desafios no tratamento eficaz desse câncer reside na identificação visual das células cancerígenas sob o microscópio. Características físicas do tumor, como sua morfologia, determinam a agressividade da doença.
De acordo com os pesquisadores, o carcinoma convencional se apresenta com células rosadas e arredondadas, enquanto variantes raras, como a fusiforme, exibem células mais claras e em formato alongado. Esta distinção física é indicativa da maior capacidade de disseminação do câncer, demandando uma abordagem médica mais rigorosa desde o início do tratamento.
Fernando Chahud, um dos pesquisadores envolvidos, ressaltou que um diagnóstico correto é essencial. Embora a variante fusiforme pertença ao mesmo tipo de tumor que o convencional, sua morfologia diferente requer uma atenção especial para que os oncologistas possam indicar o tratamento mais adequado, se necessário um tratamento mais intenso.
Diferentes Realidades entre Brasil e Hemisfério Norte
A pesquisa ainda destacou uma diferença epidemiológica significativa entre o Brasil e o Hemisfério Norte. No Brasil, a associação do HPV com o câncer de garganta é menor, cerca de 25%, enquanto na Europa e nos EUA essa taxa é cerca de 70%. Essa diferença é crucial para as possibilidades de tratamento, já que tumores causados pelo HPV tendem a ser mais responsivos à rádio e quimioterapia.
Com a maioria dos casos brasileiros não vinculados ao HPV, o prognóstico torna-se mais severo, assemelhando-se ao comportamento do câncer oral clássico, que exige estratégias mais rigorosas de combate. Jorge Léon, chefe da pesquisa, explicou que, devido à baixa prevalência do HPV entre os pacientes brasileiros, o prognóstico não é tão favorável quanto o observado nas populações norte-americanas e europeias.
Tratamentos Personalizados em Foco
Para os médicos que lidam diretamente com os pacientes, como a oncologista Graziela Vieira Cavalcanti, do Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto, as descobertas possibilitam “personalizar” a luta contra a doença. A definição exata da variante com a qual o paciente está lidando é crucial, afetando aspectos como o tamanho da margem de segurança durante cirurgias.
“A diferença nos tipos de variantes interfere no tratamento, fazendo com que possamos ajustar protocolos de quimioterapia e radioterapia. Mesmo na cirurgia, podemos decidir por margens de segurança maiores para garantir que não haja reincidiva do tumor, melhorando a morbidade e proporcionando um tratamento mais direcionado”, afirmou Graziela.
Um exemplo disso é o caso do aposentado Benedito Ferreira, que descobriu um caroço no céu da boca em 2024 e, após uma cirurgia no ano passado, continua a realizar exames trimestrais com otimismo, embora enfrente sequelas na fala. Sua próxima consulta é especialmente significativa, pois ele deverá receber uma prótese que ajudará a recuperar sua capacidade de comunicação. “Graças a Deus, estou aqui vivo e esperando a prótese. Estou muito grato!”, celebra Benedito.

