Análise do Mercado de Açúcar em Tempos de Crise
O fechamento da semana no mercado futuro de açúcar em Nova York trouxe à tona uma realidade preocupante: o contrato para maio de 2026 ficou cotado a 14,41 centavos de dólar por libra-peso, um ganho modesto de 32 pontos, o que equivale a 7 dólares por tonelada. Essa reação é considerada insuficiente, especialmente quando se considera dois fatores cruciais: a vulnerabilidade da posição dos fundos e a complexidade do cenário geopolítico que afeta o mercado de energia. Os demais meses da curva de preços, que se estendem até outubro de 2028, mostraram uma alta acumulada que variou entre 32 a 52 pontos (ou de 7 a 11,50 dólares por tonelada).
A Archer Consulting revelou que a safra do Centro-Sul para 2026/27 deve resultar em cerca de 625 milhões de toneladas de cana, com uma produção estimada de 40 milhões de toneladas de açúcar. Além disso, observa-se um leve direcionamento para o etanol, com a proporção chegando a aproximadamente 52% da produção total. Essa configuração sinaliza que o setor está ingressando na nova safra em uma situação delicada: um movimento significativo nos preços do petróleo, da gasolina ou nas taxas de câmbio pode rapidamente alterar a direção da produção. Em suma, o mercado de açúcar se vê mais influenciado pelas flutuações do setor energético do que por suas próprias dinâmicas.
Fundamentos do Açúcar: Forças em Conflito
No campo dos fundamentos, emergem forças contraditórias que podem impactar o mercado. Por um lado, o aumento nos preços do petróleo, os crescentes custos agrícolas e a vasta posição vendida dos fundos criam um ambiente que poderia incentivar uma recuperação nos preços do açúcar. Por outro lado, a incerteza econômica global, o fortalecimento do dólar e a possibilidade de uma rápida normalização das tensões geopolíticas podem reduzir o prêmio de risco atualmente embutido nas commodities.
Quando analisamos o quadro global, a hesitação do mercado torna-se mais compreensível. A produção de açúcar no mundo cresce a uma taxa de aproximadamente 1,16% ao ano, enquanto o consumo avança apenas 0,58% anualmente. Isso indica que o setor continua produzindo açúcar ligeiramente mais rápido do que o mercado está disposto a consumir. Esta discrepância ajuda a explicar a dificuldade dos preços em estabelecer uma tendência de alta mais robusta, mesmo diante de episódios de tensão energética ou climática.
Riscos do Comércio Internacional e a Reação dos Fundos
Um aspecto frequentemente subestimado é que o comércio internacional de açúcar depende de poucos grandes exportadores. Brasil e Tailândia dominam a capacidade de exportação, enquanto a Índia enfrenta um cenário de vendas externas que depende significativamente de sua política interna e do equilíbrio entre oferta e demanda. Nesse cenário ajustado, mudanças pequenas em qualquer um desses países podem transformar rapidamente um ambiente aparentemente estável em um mercado mais restrito.
Os fundos, por sua vez, parecem alheios a todo o estresse geopolítico. Mesmo com o petróleo alcançando 120 dólares por barril, o açúcar não conseguiu romper a barreira de 15 centavos de dólar por libra-peso. Em um mercado realmente competitivo, o aumento nos preços da gasolina deveria impulsionar o etanol e, consequentemente, sinalizar uma diminuição na disponibilidade do açúcar. Contudo, esse mecanismo não se concretiza quando os preços são manipulados.
O Desafio da Safra e Interferências Governamentais
Com base no relatório COT (Commitment of Traders) da CFTC, até 10 de março os fundos estavam vendidos em aproximadamente 208.000 lotes, e em uma semana liquidaram 33.500 lotes, resultando em uma alta de 45 pontos. Diante desse contexto volátil, a pergunta que se impõe é: como elaborar um orçamento que faça sentido para uma safra que se inicia em meio a um ambiente tão conturbado, onde o mercado de energia oscila intensamente e as taxas de câmbio se comportam como um barco à deriva?
Os custos de produção do açúcar VHP estão sob pressão devido ao aumento no preço do diesel, fertilizantes e insumos, devendo se aproximar de 17 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos. Assim, iniciamos a safra com um conjunto de distorções que tornam o planejamento cada vez mais arriscado.
O presidente Lula, parece fortalecer sua estratégia de manipulação de preços em nome de interesses eleitorais. A expectativa é de que ele busque segurar os preços da gasolina, que já estão cerca de 38% abaixo do mercado internacional, flertando com o risco de desabastecimento de diesel, cuja diferença para a paridade externa atinge quase R$ 2,00 por litro, mesmo após cortes de impostos. A velha história de intervenções populistas na economia parece estar de volta.
Efeitos Colaterais da Política de Preços
Quando as distorções de preço são implementadas, as consequências acabam sendo onerosas e dramáticas. O impacto é inevitável, e, nesse contexto, a conta sempre acaba sendo paga pelo consumidor. Além disso, o subsídio ao combustível pressiona as finanças da Petrobras e, consequentemente, afeta toda a cadeia produtiva. As usinas também sofrem com a frustração de não conseguir equilibrar suas contas em um momento já desafiador para o açúcar.
Para finalizar, o colaborador Marcelo Moreira destaca que o vencimento maio-26 fechou acima da média móvel dos 50 dias (14,12 centavos de dólar por libra-peso). No entanto, enfrenta resistências a 14,80 e 15,41 centavos de dólar por libra-peso, enquanto os suportes se localizam em 14,12 e 13,60 centavos de dólar por libra-peso.

