A trajetória de Maria Cecília em busca de inclusão
Aos 13 anos, Maria Cecília já se destaca como uma adolescente poliglota. Fluente em inglês, ela também estuda japonês de forma autodidata e possui uma medalha de prata conquistada na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBMEP) do ano passado. Para seus pais, Maria Antonieta Coelho e Jorge Nasser, essa realidade representa não apenas as conquistas de uma jovem prodígio, mas também a celebração de um caminho repleto de desafios, adaptações e vitórias constantes.
Diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a realidade de Maria Cecília é um reflexo de uma época em que o debate sobre neurodiversidade e inclusão ainda engatinhava no Brasil. Sem suporte governamental ou cobertura de planos de saúde, a família, residente em Ribeirão Preto (SP), teve que se reinventar, transformando o lar em um ambiente terapêutico para permitir que a filha florescesse.
“Desde que nasceu, já estávamos percebendo diferenças na sua forma de agir”, relembra Jorge. As terapias constantes e um ambiente estimulante permitiram que Maria Cecília passasse do nível de suporte 3, o mais alto em termos de apoio, para o nível 1, o mais baixo. Ela ganhou autonomia nas tarefas diárias e ainda se diverte cozinhando, sempre sob a supervisão dos pais.
O papel transformador da família na vida de Maria Cecília
A experiência de cuidar de Maria Cecília não só moldou seu desenvolvimento, mas também transformou a vida de seus pais. Antes sem apoio, Maria Antonieta e Jorge encontraram forças para se tornar a rede de suporte que tanto precisavam. Hoje, o casal participa ativamente de conselhos municipais e lidera iniciativas no Rotary Club voltadas para Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI).
“É fundamental esquecer os rótulos. São nossos filhos e precisam de amor, carinho e acolhimento”, defende Maria Antonieta, que também se dedicou a estudar análise do comportamento (ABA) e agora dá palestras para apoiar outras famílias.
Esse apoio familiar se estendeu ao lar, onde as quatro filhas enfrentam desafios semelhantes. A mais velha, Maria Beatriz, também foi diagnosticada com autismo, enquanto Eduarda tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Desafios e superações: os primeiros sinais de autismo
Maria Cecília é a caçula de quatro irmãs e, segundo Jorge, o primeiro sinal de que seu desenvolvimento era especial surgiu quando ela era ainda um bebê. “Ela se feriu com uma folha de papel e, em vez de chorar, ficou observando o sangue, intrigada. Essa reação nos chamou a atenção”, conta. A partir daí, a família começou a perceber comportamentos atípicos.
Com 1 ano e meio, a escola enviou comunicados sobre a falta de interação da menina, o que levou Maria Antonieta a pesquisar e descobrir o diagnóstico de autismo. A partir desse momento, a família iniciou uma jornada de terapias com um investimento significativo, que chegou a somar cerca de R$ 3 milhões ao longo dos anos.
“Fomos atrás de terapeutas, porque não havia apoio público. Nossa terapeuta ensinou toda a família a agir da mesma forma com a Maria Cecília, que ficava em tratamento 24 horas por dia”, explica Maria Antonieta.
A importância do suporte e a busca por inclusão escolar
De acordo com a neuropediatra Gabriela Amoedo Cavassani, a abordagem intensiva e precoce, com pelo menos 25 horas semanais de terapia, é fundamental para o desenvolvimento de crianças com autismo. No entanto, a busca por inclusão escolar para Maria Cecília não foi fácil. A família enfrentou dificuldades em matriculá-la em escolas que não estavam preparadas para receber crianças com necessidades especiais, resultando em frustrações e convocação para retirada em várias ocasiões.
Atualmente, Maria Cecília estuda em uma escola municipal e conta com o suporte de uma pedagoga. Recentemente, ela conquistou uma medalha de prata na Olimpíada Brasileira de Matemática, mas destaca que sua matéria favorita é História. “Gosto de Matemática dependendo de como é aplicada”, revela.
Paixão pela cultura oriental e futuros sonhos
No momento, Maria Cecília está profundamente interessada pela cultura oriental. Fascinada por mangás, ela aprendeu a desenhar assistindo a vídeos e decidiu estudar japonês para entender melhor as histórias que tanto ama. Sua trajetória é um exemplo de como a dedicação, o amor e a busca por inclusão podem transformar vidas e derrubar barreiras.
A história de Maria Cecília é mais do que um relato de superação; é uma inspiração para muitas famílias que enfrentam desafios semelhantes. O suporte familiar e o acolhimento não apenas promovem o desenvolvimento da criança com autismo, mas também fortalecem laços e constroem uma rede de apoio essencial.

