Setor agrícola sob pressão
A previsão de uma nova redução nas vendas de máquinas agrícolas em 2026 pode marcar o quinto ano consecutivo de queda no setor. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou, em coletiva na última quarta-feira, 15, a expectativa de comercialização de 46,7 mil unidades, o que representa uma diminuição de 6,2% em relação a 2025. Além disso, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) alerta que essa retração comprometerá o faturamento em 8%.
Os números negativos estão diretamente relacionados à diminuição da rentabilidade do produtor rural e às dificuldades em acessar crédito, de acordo com o presidente da Anfavea, Igor Calvet. Ele enfatiza que a alta da taxa básica de juros, atualmente fixada em 14,75% ao ano, é um dos principais obstáculos à renovação da frota e novos investimentos no campo.
Fatores externos impactam o setor
Além das condições internas, o contexto internacional também tem pressionado o setor agrícola. Tensões geopolíticas, como o conflito entre Estados Unidos e Irã, têm elevado os custos de insumos essenciais, como fertilizantes e diesel, colocando mais pressão sobre as margens de lucro dos agricultores. Esses fatores conjurados criam um cenário desafiador para o mercado de máquinas agrícolas.
Contudo, apesar das dificuldades, o setor mantém uma visão otimista em relação à Agrishow, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, agendada para ocorrer de 27 de abril a 1º de maio em Ribeirão Preto (SP). “Não tem como a Agrishow ser ruim. O que pode acontecer é a feira espelhar um pouco do momento que estamos vivendo”, afirma Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Abimaq.
Expectativas para a Agrishow 2026
Ele ressalta que a relevância da Agrishow para as vendas anuais das empresas não deve ser subestimada, mesmo em um contexto de vendas projetadas em queda. Na edição de 2025, o evento gerou R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios, marcando um crescimento de 7% em comparação ao ano anterior. Para 2026, no entanto, os organizadores decidiram não divulgar expectativas específicas.
Se as previsões se confirmarem, o setor agrícola encerrará mais um ciclo de vendas em baixa. Apesar de ainda manter volumes significativos, a indústria tem enfrentado uma desaceleração nos investimentos, consequência da queda nos preços de commodities importantes, como soja e milho, além das dificuldades em obter crédito rural. “Os bancos estão exigindo muitas garantias na hora de conceder empréstimos, devido à inadimplência que gira em torno de 7%”, complementa Estevão.
Ações necessárias para recuperação
Tradicionais programas de financiamento, como o Moderfrota, também têm alcançado um número menor de produtores, contribuindo para a diminuição da demanda por novos equipamentos. Esse ambiente restritivo tem limitado o crescimento da indústria e preparado o terreno para a nova retração esperada em 2026.
“À medida que o dólar se desvaloriza, a rentabilidade do agricultor também diminui, levando-o a adiar investimentos em maquinário”, afirma Estevão. Apesar da sequência negativa nas vendas, o faturamento do setor fechou 2025 no positivo, com um aumento de 7% em relação a 2024, impulsionado por um primeiro semestre especialmente forte, onde o crescimento chegou a 20% comparado ao mesmo período anterior.
“No entanto, o segundo semestre não teve o mesmo desempenho. A mudança coincidiu com o aumento de impostos e a queda do dólar”, analisa. “A queda das commodities, que são cotadas em dólar, faz com que a rentabilidade dos agricultores também diminua, levando ao adiamento de investimentos em novas máquinas”.
Desafios futuros e propostas
A Abimaq também defende a necessidade de medidas que fortaleçam a indústria nacional, especialmente diante do crescimento das importações, que ameaçam a participação de mercado e o emprego no setor. A entidade está elaborando um documento com reivindicações que será apresentado aos próximos candidatos à Presidência da República.
Para Estevão, a recuperação do setor nos próximos meses depende de ações governamentais que ampliem a disponibilidade de crédito. “Os preços das commodities não devem melhorar tão rapidamente, e a taxa de juros tende a permanecer alta, influenciada pela situação da guerra no exterior”, conclui.

