Desafios Impostos pelo AVC no Brasil
O acidente vascular cerebral (AVC) continua a ser uma das principais causas de morte no Brasil, revelando-se um desafio significativo para a saúde pública. Dados recentes do Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil indicam que, entre janeiro e outubro de 2025, a doença causou 64.471 mortes no país — uma média alarmante de uma fatalidade a cada seis minutos. Esse cenário ressoa um problema persistente que atinge diversas regiões e grupos demográficos, sublinhando a gravidade da situação.
Além do impacto direto na mortalidade, o AVC afeta significativamente a estrutura do sistema de saúde e a vida dos pacientes e suas famílias. O aumento das internações hospitalares, as sequelas permanentes e os crescentes custos assistenciais são reflexos da complexidade do problema. Especialistas apontam que fatores como hipertensão arterial, sedentarismo, envelhecimento populacional, diabetes, obesidade e tabagismo são responsáveis pela alta incidência da doença no Brasil.
A Visão dos Especialistas e Dados Alarmantes
Segundo o neurologista Octávio Pontes Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coordenador da Rede Nacional de Pesquisa em AVC (RNPAVC), os números recentes reafirmam uma realidade já conhecida. “Esses dados estão em linha com as informações disponíveis nas bases oficiais do Ministério da Saúde e nas pesquisas sobre a carga global da doença. O AVC se destaca como uma das principais causas de morte no Brasil, com estimativas que giram em torno de 90 mil a 100 mil óbitos anuais”, aponta.
O neurologista enfatiza que, embora esses dados ajudem a evidenciar a gravidade do problema, eles não indicam uma mudança brusca na tendência atual. “Não se trata de um fenômeno novo. Há uma continuidade de um padrão elevado de mortalidade que persiste há anos. É um desafio antigo que não desaparece.”
Limitações nos Dados e a Questão da Subnotificação
Embora o levantamento realizado pelos cartórios seja considerado abrangente e de qualidade aprimorada nos últimos anos, ainda existem limitações. Em áreas com menor acesso a recursos como tomografia computadorizada e neurologistas, o diagnóstico tende a ser menos preciso. “Frequentemente, o AVC é classificado como causa indeterminada ou como AVC não especificado. Ademais, como não é uma doença de notificação compulsória, é muito provável que haja subnotificação e distorções regionais nos dados”, ressalta Pontes Neto.
A Urgência da Prevenção e Atendimento ao AVC
Os dados apresentados reforçam a necessidade de tratar o AVC como uma prioridade nas políticas públicas de saúde. “A prevenção deve focar no controle dos fatores de risco, destacando a hipertensão arterial como o principal, além de tabagismo, diabetes, dislipidemia, obesidade e sedentarismo. Essa abordagem requer ações contundentes na atenção primária à saúde”, enfatiza o especialista.
No entanto, a resposta ao AVC não se limita apenas à prevenção. Trata-se de uma emergência médica que exige um atendimento rápido e bem estruturado. Nos últimos anos, houve avanços significativos nas opções de tratamento, especialmente com o surgimento de terapias de reperfusão, como trombólise e trombectomia mecânica, além da implementação da telemedicina.
Conforme Pontes Neto, centros de referência já possuem protocolos eficazes e esses tratamentos integram o Sistema Único de Saúde (SUS). O maior desafio, segundo ele, reside na desigualdade de acesso. “Muitos pacientes chegam ao hospital tardiamente, frequentemente fora da janela terapêutica, seja pela dificuldade em reconhecer os sintomas, barreiras geográficas ou falhas na estruturação da rede de emergência.”
O Aumento de Casos entre Jovens e a Impacto da Pandemia
Embora o AVC seja mais comum em pessoas acima dos 50 anos, com uma incidência que dobra a cada década após essa idade, há um crescimento notável de casos entre populações mais jovens. Segundo Pontes Neto, esse aumento está vinculado ao pior controle de fatores de risco, como obesidade, sedentarismo e hipertensão, além do consumo excessivo de álcool. A pandemia de covid-19 também exacerbou essa situação, dificultando o acompanhamento médico, aumentando o estresse e piorando hábitos de vida, além de atrasar a busca por atendimento.
Perante esse quadro alarmante, o especialista propõe a adoção de estratégias de prevenção que acompanhem o indivíduo ao longo de toda a vida. “É essencial investir em prevenção primordial, evitando o surgimento de fatores de risco, através de hábitos saudáveis, como uma alimentação equilibrada, sono de qualidade e a prática regular de atividade física — ao menos 300 minutos de exercício semanalmente.”

