Potencial Medicinal da Própolis Verde
Um estudo conduzido por cientistas da FCFRP (Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto) da USP (Universidade de São Paulo) revelou novas perspectivas sobre as propriedades medicinais da própolis verde. Essa substância, que pode desempenhar um papel significativo no combate a doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, é gerada a partir da resina do alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia), uma planta nativa do Brasil, a qual as abelhas misturam com cera e saliva.
No decurso da pesquisa, os cientistas se concentraram em dois compostos principais da própolis verde: o Artepelin C e a Bacarina. Ao analisá-los, descobriram que esses componentes têm a capacidade de induzir a diferenciação neuronal, aumentar a conectividade entre neurônios e promover um efeito antiapoptótico, que reduz a mortalidade celular.
Esses resultados foram obtidos em experimentos in vitro realizados no âmbito da tese de doutorado do farmacêutico Gabriel Rocha Caldas, sob a supervisão do professor Jairo Kenupp Bastos. “Esta descoberta representa um avanço promissor, especialmente na prevenção e no controle de doenças do sistema nervoso, e deverá ser explorada em investigações futuras”, afirma Caldas.
O pesquisador também destaca a importância de valorizar um recurso tipicamente brasileiro, que pode provocar impactos significativos nas esferas científica, econômica e social. A pesquisa está integrada à dissertação que lhe conferiu o título de doutor, intitulada Investigação do Potencial de Artepelin C e de Bacarina da Própolis Verde e Artepelin C Acetilado na Indução da Neuritogênese, defendida no último ano. Parte dos resultados também foi publicada na edição de novembro de 2023 da revista Chemistry & Biodiversity.
Função dos Compostos no Ambiente Neural
Para obter os compostos Artepelin C e Bacarina, os pesquisadores empregaram uma série de técnicas cromatográficas, que envolvem métodos de separação complexos. “Podemos imaginar o processo como uma ‘peneiração química’, onde utilizamos solventes e diferentes técnicas para fracionar a própolis até isolarmos moléculas puras”, compara Caldas.
Depois de isolar esses compostos, foram realizadas duas abordagens para entender como o Artepelin C e a Bacarina atuam no organismo: a modelagem computacional e experimentos com células PC12, que são utilizadas como modelo para estudos neuronais. A modelagem permitiu avaliar as propriedades físico-químicas dos compostos, como solubilidade e a capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, uma membrana crucial que reveste os vasos sanguíneos do cérebro e da medula espinhal.
“Esse entendimento teórico é fundamental para verificar se essas moléculas têm potencial para alcançar o tecido nervoso em sistemas vivos. Os experimentos com células PC12, por sua vez, demonstraram, na prática, a forma como os compostos interagem com as células neuronais”, explica o pesquisador.
Para facilitar a penetração do Artepelin C no sistema nervoso, o processo de acetilação foi utilizado, tornando a molécula mais lipofílica, ou seja, aumentando sua afinidade por substâncias gordurosas, essenciais para a passagem pela barreira hematoencefálica. Esta decisão foi respaldada pelos estudos computacionais, que confirmaram que a forma acetilada do Artepelin C atravessa essa barreira com maior eficiência.
Regeneração Neural e Potencial Antioxidante
A pesquisa revelou que o tratamento com os compostos da própolis verde possibilitou que as células PC12 formassem neuritos, pequenas extensões que, posteriormente, se transformarão em axônios e dendritos, elementos fundamentais na comunicação neuronal. “Essas estruturas são essenciais para que os neurônios possam transmitir e receber informações”, aponta Caldas.
Além disso, os testes indicaram um aumento das proteínas sinapsina I e GAP-43, que são essenciais para o processo de diferenciação neuronal, funcionando como marcadores de crescimento e amadurecimento dos neurônios. “O incremento dessas proteínas sugere que as células estão em um estado propício à regeneração, um aspecto muito desejado no tratamento de doenças neurodegenerativas”, esclarece o pesquisador.
Outro ponto relevante foi o potencial antioxidante observado no estudo, onde o Artepelin C e a Bacarina demonstraram habilidade em neutralizar espécies reativas de oxigênio, que são muitas vezes elevadas em condições patológicas. Os compostos da própolis verde se mostraram capazes de reduzir a ativação de vias que levam à morte celular programada, o que constitui um envolvimento positivo em cenários de estresse neural, característico nos estágios iniciais de doenças neurodegenerativas. “Esses achados ressaltam o valor do Artepelin C e da Bacarina na protecção neural em situações críticas”, conclui Caldas.

