Análise sobre a decadência política do Rio de Janeiro
O estado do Rio de Janeiro se destaca no cenário nacional, mas não pelas melhores razões. O recente afastamento do governador Cláudio Castro revela um padrão preocupante que se repete desde os anos 2000, com uma sequência de governadores enfrentando prisão ou destituição. A economia fluminense também apresenta dados alarmantes; apesar de ser o segundo maior PIB do Brasil, a combinação de má gestão e a volatilidade dos preços do petróleo resultou em uma grave crise financeira.
Discussões sobre a transferência da capital federal para Brasília muitas vezes são apontadas como um fator que contribuiu para essa decadência. Contudo, é preciso reconhecer que Brasília continuou a abrigar importantes estatais e autarquias, como a Petrobras e o BNDES, enquanto o regime militar fez sua parte ao expandir o papel do setor público na economia do estado, criando diversas empresas estatais e transformando a Petrobras em um ícone do desenvolvimento fluminense. A Ponte Rio-Niterói, na época a maior do mundo, simbolizava essa era de crescimento.
Entretanto, o cenário começou a se deteriorar na década de 1980, com a crise da dívida externa que paralisou investimentos essenciais na indústria. Pesquisadores como Régis Bonelli e Samuel Pessôa documentam o impacto devastador da desindustrialização no estado nesse período. Sendo altamente dependente de repasses federais, o Rio sofreu amargamente as consequências da chamada década perdida.
O início dos anos 1990 trouxe novos desafios. A abertura comercial promovida pelos presidentes Collor e Itamar Franco, embora tenha aumentado a produtividade em nível nacional, acabou por deixar regiões como o Grande Rio desamparadas, especialmente aquelas com economias baseadas em indústrias fracas e vulneráveis à concorrência externa. O resultado? Um aumento significativo da criminalidade, com a Avenida Brasil, um dia um vibrante cinturão industrial, se tornando um triste palco de conflitos entre facções criminosas.
O papel das lideranças políticas e a falta de oposição
Durante esse período de declínio econômico, a liderança do estado estava sob a batuta de Leonel Brizola, que, enquanto a esquerda nacional se consolidava com o PT, controlava a dinâmica política regional. Em 1998, a influência do ex-governador tornou-se evidente nas eleições quando o diretório petista teve que alinhar-se à sua coligação, em troca da candidatura conjunta de Lula e Brizola à presidência. Essa intervenção não foi bem recebida por muitos petistas fluminenses, resultando, anos depois, na migração de muitos deles para o PSOL.
A trajetória do PT no Rio é marcada por uma sucessão de insucessos. A ex-vice de Garotinho, Benedita da Silva, amargou derrotas significativas, como a do governo do estado para Rosinha Garotinho em 2002. Em outros pleitos subsequentes, o partido ficou restrito a um papel secundário em coligações ou, muitas vezes, enfrentou resultados desastrosos.
Se o PT viu sua influência minguar na esquerda, o PSDB sofreu um destino semelhante na direita. A ascensão do tucano Marcello Alencar em 1994 não conseguiu se sustentar, pois seu vice não conseguiu agregar votos nas eleições seguintes. Curiosamente, todos os políticos mencionados, como Cesar Maia e Garotinho, iniciaram suas carreiras com a influência de Brizola. Anos depois, figuras como Sérgio Cabral e Eduardo Paes, embora originários de outra ala política, acabaram se alinhando ao PMDB.
No Rio, a disputa nacional entre PT e PSDB nunca se concretizou de fato. Em seu lugar, uma ampla coalizão em torno do PMDB tomou forma, sustentada por um governo federal que se relacionava com o crime organizado e se envolvia em esquemas de corrupção. Essa máquina política dominou a cena regional, elegendo figuras como Cabral e Pezão.
A ascensão da extrema direita e suas consequências
A oposição à esquerda ficou a cargo do PSOL, um partido que, ao se aliar ao PSB, conseguiu resultados razoáveis nas eleições de 2022, mas insuficientes para barrar a reeleição de Cláudio Castro, que se beneficiou de um esquema de corrupção que o tornou inelegível posteriormente. À direita, Marcelo Crivella, um líder evangélico, também deixou sua marca ao vencer a prefeitura do Rio e alcançar o segundo turno nas eleições estaduais de 2014, mas sua passagem não foi marcada por bons legados.
A chegada abrupta da extrema direita na política fluminense provocou um verdadeiro caos. O processo de impeachment de Witzel e a ascensão de Castro, que governou com uma Assembleia Legislativa preenchida por remanescentes da antiga coalizão e novos aliados bolsonaristas, resultou em um cenário profundamente comprometido, infiltrado por milícias e grupos criminosos.
Democracias saudáveis necessitam de oposições eficazes e proativas, capazes de oferecer alternativas e obrigar governos a implementar políticas públicas de qualidade. O que se observou no Rio de Janeiro foi o oposto: a ausência de uma oposição forte contribuiu para que o governo estadual se tornasse cada vez mais ineficaz e corrupto, incapaz de enfrentar as profundas crises sociais e econômicas que afligem a população.

