Confronto de Enredos e Polêmicas
Vinte anos antes da controvérsia envolvendo a escola de samba Acadêmicos de Niterói, que este ano fez uma ode à trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Marquês de Sapucaí, outra homenagem carnavalesca a candidatos movimentou o cenário político e jurídico do Brasil. Em 2006, a agremiação Leandro de Itaquera, em São Paulo, decidiu incluir em seu desfile uma alegoria com figuras de Geraldo Alckmin e José Serra, ambos do PSDB na época, o que provocou a indignação do PT.
Curiosamente, tanto a escola de Niterói quanto a Leandro de Itaquera encerraram o carnaval com o rebaixamento.
Histórico Político e Justiça
O caso, que ganhou destaque nas páginas do Metrópoles e foi corroborado pelo GLOBO, remonta a outubro de 2006, quando Lula preparava-se para disputar a reeleição. Naquele contexto, Alckmin, então governador, e Serra, prefeito da capital, eram considerados fortes adversários nas urnas. Meses antes do pleito, a Leandro de Itaquera apresentou um enredo que celebrava ‘festas e tradições paulistas sobre as águas de um novo Tietê’, com referências a festividades locais — incluindo a parada gay e o carnaval — e obras de rebaixamento da calha do rio, uma das bandeiras do PSDB.
O desfile destacava bonecos gigantes de Alckmin e Serra, além de um busto do ex-governador Mário Covas e, na liderança, a figura de um tucano. Assista ao vídeo do desfile a partir de 49:50.
Na época, vereadores do PT em São Paulo reagiram com uma ação popular visando barrar a escola de samba de desfilar com a homenagem. A bancada protocolou um requerimento para investigar os recursos públicos recebidos pela agremiação e levantou questionamentos sobre uma possível infração à legislação eleitoral.
“É um uso indevido de dinheiro público para promoção pessoal e campanha”, argumentou o vereador Arselino Tatto, líder da bancada do PT na Câmara Municipal.
Desfiles e Resultados Eleitorais
O PT buscou uma liminar para impedir a entrada do carro alegórico na avenida, mas, apesar de todas as contestações, o desfile ocorreu normalmente. No fim das contas, Lula foi reeleito, enquanto Alckmin e Serra também conseguiram suas vitórias eleitorais.
A Leandro de Itaquera segue sob a liderança de Leandro Alves Martins, que em 2004 tentou, sem sucesso, um cargo de vereador pelo PSDB.
Nova Polêmica com a Acadêmicos de Niterói
Recentemente, a Acadêmicos de Niterói também se envolveu em polêmicas. Após o desfile, membros da oposição criticaram o rebaixamento da escola e anunciaram a intenção de recorrer à Justiça, alegando ilícitos eleitorais e intolerância religiosa em uma ala que retratava evangélicos de forma negativa.
Um dia após o desfile, a escola lamentou, em comunicado, ter enfrentado perseguições durante a preparação do carnaval por conta do enredo escolhido. Especialistas consultados pelo GLOBO apresentaram opiniões divergentes sobre a legalidade da homenagem a Lula.
Enredo e Recurso Público
Estreante no Grupo Especial em 2026, a Acadêmicos de Niterói trouxe como enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, recontando a trajetória de Lula desde sua infância em Garanhuns (PE), passando pela migração a São Paulo, sua atuação como metalúrgico e líder sindical, até a presidência.
Antes do desfile, a Justiça Federal já havia rejeitado ações de opositores que questionavam a legalidade da propaganda eleitoral antecipada. Os opositores moveram uma ação popular contra o repasse de R$ 1 milhão à escola niteroense, alegando que os recursos poderiam ser utilizados para promover a imagem de Lula, pré-candidato à reeleição.
A Liesa, em nota, explicou que o Termo de Cooperação Técnica com a Embratur e o Ministério da Cultura previa uma destinação igualitária de R$ 1 milhão para cada uma das doze escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Em 2025, o apoio do governo federal para o Desfile das Escolas de Samba foi realizado através do Ministério do Turismo, totalizando R$ 12 milhões, igualmente distribuídos entre todas as escolas do Grupo Especial.

